CARMEN SAECULARE, DE HORÁCIO

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CARMEN SAECULARE DE HORÁCIO

Monumento de glorificação

Dissertação de Mestrado em Língua e Literatura Latina pelo professor José de Oliveira Magalhães.

Ponto de vista de um leitor, a partir do manuseio da obra.

Sentimento Inicial – Ao manusear um trabalho dessa envergadura, escrito por uma pessoa simples aos 60 anos de idade, um sentimento muito especial nos envolve, dando-nos a certeza de que há, de fato, muita coisa importante na face da terra, que podemos ver, admirar e contribuir para o seu aprimoramento.

Começa-se pelas mensagens de dedicação. Além de se tratar de uma obra feita por um irmão, fica-se diante de algo muito valioso, sob todos os aspectos, algo profundo, culto e de uma força exemplar maravilhosa. Sente-se o prazer e a satisfação de todos que cercam o autor, principalmente os mais próximos – aqueles que convivem o seu dia-a-dia, as suas dificuldades, as suas limitações materiais, etc. Essas pessoas tiveram a suprema felicidade de merecer um lugarzinho na lembrança do autor, oportunidade em que registrou para a posteridade o seu sentimento de gratidão e exemplo para com eles. É, de fato, um belo momento.

Abrindo o livro, inicialmente a gente vai penetrando o tema e se familiarizando com os personagens; o seu ambiente no tempo e no espaço. Observa-se o nível de dificuldade do leitor para a compreensão do conteúdo da obra, bem como o natural desafio para o autor que teve que se debruçar sobre volumosa bibliografia e procurar exaustivamente extrair o conteúdo do seu projeto. Paulatinamente vai-se identificando o pensamento das partes e começa o entusiasmo. Vive-se o ambiente do autor e o universo da obra.

Certamente, nosso querido Mestre José Magalhães enfrentou os maiores obstáculos. Sua coragem de estudar na cidade grande fazendo vestibulares e disputando vagas limitadíssimas em contrapartida à profusão de candidatos, fê-lo enrijecer a têmpera, obtendo a coragem suficiente para chegar ao fim. Além disso, enfrentou as limitações tecnológicas e a própria capacidade do poder aquisitivo. Sob todos os aspectos, sobra-nos demonstração de profícuo exemplo para vencer as dificuldades da vida e mostrar que a conquista de qualquer objetivo depende apenas da vontade do protagonista. Misteriosamente, o valor das conquistas está intrinsecamente vinculado ao nível de dificuldade superado, em harmonia com os estímulos recebidos de pessoas que têm uma sensibilidade mais aguda e conseguem enxergar além do óbvio. Destarte, o seu trabalho – Carmen Saeculare de Horácio – Monumento de Glorificação – traduz para si o que há de mais importante em realização pessoal. É a glória, o paroxismo, o gozo divino, porque eivado de sacrifícios, desafios e até incompreensões. Para nós, os reflexos da proximidade parentesca dão-nos uma conotação especial.

A centelha das dedicatórias é a tocha olímpica que o qualifica a homenagear os que lhe são caros. “À minha mãe, primeira e eterna mestra, amiga certa das horas incertas, pelo incentivo diuturno e completa doação” resgata o prêmio maior para quem merece tudo. Aí está o que há de mais puro e valioso extraído do íntimo do coração e dirigido àquela que, parece, investiu todas as suas esperanças no futuro brilhante do filho. Isto, independente de a homenageada ter ou não condições de assimilar o seu conteúdo. Seu instinto materno compensará as virtuais deficiências.  “Às netas Andressa, Thamiris, Marina e Maria Clara, na esperança de que, quaisquer que forem os caminhos a percorrer, tenham a felicidade de encontrar na cultura greco-latina respostas para suas dúvidas”. A mensagem representará o farol que as guiará pelas sendas tortuosas da vida, dando-lhes segurança e fortaleza para definir rumos em direção à Verdade; dádiva valiosa aos netos, diante do exemplo materializado. “À Fátima, esposa e amiga, pelo apoio e incentivo nos momentos mais difíceis”, lembrando que, de fato, nas horas mais conturbadas de sua vida, contribuiu positivamente para o seu sucesso. Certamente não devem só ter sido acertos nas horas difíceis, mas contribuiu para o aprimoramento do futuro Mestre, uma vez que, não é só nos amigos que conseguimos ajuda sincera. Os adversários nos reservam maravilhosa fonte de preciosidades em termos de ensinamentos. “Aos filhos Marcus Vinicius, Rita de Cássia e Carla, pelo estímulo sempre presente durante todo o processo”, um prolongamento da dedicação às netas. Não por acaso, os filhos dos nossos filhos são a garantia da continuação da espécie. Antes de servir de farol àquelas, estará iluminando permanentemente estes, numa espécie de exemplo a ser seguido e extensão aos demais.

Pela natural complexidade do tema, o começo do trabalho nos remete para a manifestação do desejo de ter um conhecimento à altura do empreendimento, visando desfrutar a beleza da obra. Mas, não é fácil. Seguindo em frente, as portas começam a se abrir e o leitor inicia uma trajetória especial, voltando no tempo e convivendo com os protagonistas da época. Descobertas interessantes nos fazem participar com certa intensidade a movimentação da obra. Ficou gravado o exemplo de personagens fortes tais como Otávio Augusto (Caius Otavius Augustus, por adoção Caius Julius Caesar Octavianus, primeiro imperador romano) e suas particularidades, bem como o desempenho dos imortais contemporâneos Mecenas, Virgílio e Horácio. Ajudado por Mecenas, Augusto favoreceu os poetas Horácio, Ovídio e Virgílio e tantos outros. Suas reformas foram para o mundo uma garantia de paz e prosperidade. Sua ação foi tão forte que foi dada em sua época a denominação de “século de Augusto”. Em seu reinado Jesus Cristo nasceu na Galiléia. Virgílio (Publius Vergilius Maro – 70-19 a C.) nasceu em Andes, perto de Mântua, na Itália, era filho de um abastado agricultor. Estudou em Roma, Milão e Nápoles. Escreveu “Geórgicas”, dedicado a Mecenas; “Bucólicas”, dando ênfase aos mistérios do homem-natureza, onde a paz é ardentemente desejada. Escreveu também “Eneida”, epopéia em 12 cantos, que celebra a origem, o crescimento e o apogeu do império romano. Antes de morrer, Virgílio pediu a amigos que trouxessem os originais de Eneida para destruí-los, pois estava inacabada e ele era perfeccionista. Não foi atendido e o imperador Augusto mandou publicá-la na íntegra, porque se tratava de um hino à paz, objetivo principal de sua luta. Assim, o objetivo maior de Virgílio era a busca da paz. Horácio (Quintus Horatius Flaccus 65-8 a C.) nasceu em Venúsia, Itália e “desfrutava do maior grau de respeito, intimidade, afinidade e carinho junto a Mecenas, seu protetor e amigo. Teve vida bastante conturbada e marcada por desilusões e frustrações, até conhecer Mecenas. Mecenas, nome muito importante na época, foi conselheiro privilegiado de Augusto, a ponto de substituí-lo em suas ausências de Roma e Itália.” Foi muito homenageado pelos poetas. Voltando a Horácio, este foi amigo de Virgílio e protegido de Mecenas. “Ao morrer, teve honras fúnebres ordenadas por Augusto. Educado, de caráter independente, grande sensibilidade, privou da alta roda de políticos e homens de letras. Depois da morte de Virgílio, tornou-se um poeta laureado.” Sua obra foi volumosa. Carmen Saeculare, muito bem retratada na Tese sob referência, “é um hino sáfico em honra de Apolo e Diana. Horácio é um lírico admirável, sobretudo nas odes, de requintada perfeição e delicadeza, de um singular sentimento da natureza e da vida bucólica. Vazadas em estilo preciso, típico, sobretudo pela nitidez e brevidade das imagens e pela combinação nova das palavras, sua obra irradiou-se por todo o Ocidente, obtendo larga e profunda popularidade.”

Certamente, fica cada vez mais difícil a aparição de exemplos da espécie nos dias de hoje. Com o desenrolar dos acontecimentos modernos, parece que estamos condenados a ver espetáculos deprimentes do tipo PC FARIAS e compreender que fica cada vez mais difícil uma reviravolta universal no sentido de voltarmos a sentir os verdadeiros valores da humanidade. Confeccionar uma Tese de Mestrado nos moldes de Carmen Saeculare nos dias de hoje, parece um sonho, algo intangível, em que o seu universo fica cada vez mais limitado a poucas pessoas e, assim, difícil de ser notado em sua extensão. Vale observar que, exatamente por isto, seu valor pode se tornar maior.

Visando contribuir para uma valorização adequada à compreensão da obra, este leitor se cercou de certos cuidados: determinou o horário da 20:00h para ler a obra; fê-lo no  seu gabinete residencial com música apropriada e luz abundante. Enquanto lia, ouvia clássicos em geral. Nada mais adequado.

Ao longo da leitura, frases e passagens especiais chamam atenção, gerando uma vontade maior de se fazer pinçamentos para reflexão. “Se a doença do corpo se combate com remédios, a saúde da alma só se mantém por meio de uma moral”- Horácio. “A honra só se adquire por meio da virtude”- idem. “O canto secular canta a família, os bons costumes, o respeito à velhice, o amor ao campo, a religiosidade e os valores morais responsáveis pela formação do caráter da raça” – do autor da Tese; “Alea jacta est’ – frase pronunciada por César para mostrar aos seus subordinados que o caminho escolhido não tinha volta em meados do inverno 50 – 49 a C. Enfim, César Augusto Otávio referendado pelos destaques do Estado de Caius Julius “Caésar” Otavianus, no gentílico, “Júlio” em homenagem ao mês de nascimento e “Augusto” em honra ao mês em que recebeu o primeiro consulado e obteve as principais vitórias.

Conclusão – Destarte, o autor da tese consegue dar ritmo de naturalidade ao livro, como um rio majestoso que segue o seu curso normal sem maiores dificuldades, parecendo um escritor de renome, razão porque fica a sensação de bem-estar pelos ensinamentos recebidos. Assim, nada mais justo do que parabenizá-lo pela brilhante obra realizada e manifestar os votos de que o seu exemplo seja seguido por tantos quantos possam participar da iniciativa. Lamenta-se apenas que não tenha aproveitado, em tempo hábil, sua capacidade geradora de produzir inúmeras obras literárias, a exemplo de Fernando Morais, Fernando Sabino, Cecília Meireles, Graciliano Ramos e tantos outros, a fim de que pudéssemos estar recebendo os seus ensinamentos.

Maceió, quinta-feira, 15 de agosto de 1996

Abel de Oliveira Magalhães – admirador confesso.

 

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