CONVERSANDO COM D. OLÍVIA

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Olivia N. Magalhães

CONVERSANDO COM MAMÃE

Abel Magalhães*

“Uma simples mulher existe…”

Pois é, uma pessoa, cuja sensibilidade é muito forte, escreveu, um dia, um poema maravilhoso realçando o valor de sua querida mãe.

Hoje não é Dia das Mães. Mas é dia da minha mãe. Digo melhor: hoje é dia de nossa mãe. Sim, porque são doze filhos que ela gerou e que hoje, aos 82 anos de idade ela os ama com a mesma intensidade e se doa todos os dias em prol da felicidade deles. São oito homens e quatro mulheres para quem o sentimento é igual.

No dia 13.10.13, no Alto do Cruzeiro, em Arapiraca, nascia aquela que viria a ser a
criatura mais importante na vida de uma família numerosa e das mais conhecidas na cidade, a Família Magalhães.

Como hoje é seu aniversário, gostaríamos de conversar um pouco com ela e reviver momentos importantes em sua vida. Sintamos a pureza de suas palavras e idéias.

Como era Arapiraca em sua vida de infância? – Naquela época, quando eu era moça, eu me lembro que havia a Rua do Comércio, a Igreja  e a Rua Nova. A Rua Nova ficava onde hoje é a Praça Marques da Silva. Tudo muito simples.  Não havia carro, nem luz elétrica. A iluminação era feita de candeeiro e lampião. Havia muito romantismo, noites de lua e serenatas. Estudei até o 3º Ano Primário, o máximo que existia na época. Minha primeira professora se chamava Chiquinha Macedo, minha madrinha. Depois foi D. Maria Fragoso, que era uma professora civilizada e muito exigente. Ela ensinava de verdade. Quando eu terminei os estudos, por não haver mais o que estudar, ela disse que eu pudia arranjar uma vaga municipal que ela garantia. O estudo foi uma das coisas marcantes em minha vida. Fiz tudo para que os meus filhos se dedicassem aos estudos. Infelizmente, não fui muito bem-sucedida. O gosto pelo estudo foi herdado da minha mãe que, pobrezinha, apesar de ter pouco estudo, conhecia as letras e incentivava a gente a estudar. Já o meu pai era muito bruto e não queria que a gente estudasse. Com relação aos meus filhos, José foi quem mais se dedicou. Ele era tão dedicado que, quando terminou o 4º Ano Primário, o Prof. Pedro Reys, o Pe. Antônio Lima, o Pe. Epitácio e outros disseram: “Aproveite esse menino! Ele é muito inteligente e interessado”. Por isto, ele foi estudar em Maceió e se tornou o homem bem-sucedido que é hoje no Rio de Janeiro.

Como conheceu o papai? – Ele sempre andava lá em casa. Era muito amigo dos meus irmãos e tinha muita facilidade de fazer amizade.

Como foi o pedido de casamento? – “Teu pai foi me pedir na prisão”. Como assim? É o seguinte: como você sabe, o seu avô foi delegado de Arapiraca e não gostava de ladrão. Ele acabou com todos. No entanto, houve uns que eram parentes de gente importante. Vinte anos depois processaram o seu avô e ele foi para a cadeia. O seu pai estava doido pra casar e foi lá me pedir. Quando voltou, veio com as alianças. Foi uma surpresa danada. Eu tive muito prazer com esse gesto. Ele me pediu em casamento com oito dias de namoro. Foi a maior prova de amor. Ele queria casar logo, mas o meu pai estava preso e eu pedi que ele demorasse mais, até que ele se soltasse da prisão. E foi isso o que aconteceu.

Como foi o seu casamento? Houve festa? – Houve. Foi na Matriz de Nossa Senhora do Bom Conselho. Todo mundo ia a pé. Fomos de pé do Alto do Cruzeiro até a Matriz. Depois do casamento, fomos para a casa de um irmão do teu pai, que era fotógrafo e ele fez a foto do nosso casamento. Ficou a coisa mais linda do mundo. Com vinte anos de idade eu era a noiva mais bonita e feliz do mundo. Houve muita bebida e comida. O casamento era de gosto de todos e todos colaboraram para fazer a festa. Mataram boi, peru, galinha, porco, tudo. Agora, um segredo: O retrato do casamento ficou muito bonito, mas um dia, quando eu pensava que quem tinha tanto amor era até para ir para o céu, tive muita decepção, peguei o retrato e rasguei. Depois me arrependi.

E a lua de mel? – Acanhada, disse que tinha uma vergonha danada e que só se acostumou com o casamento depois de um ano de casada. “Mas eu não revelava nada a ninguém. A minha vida íntima era somente minha. Ninguém participava de meus segredos. Nem a minha melhor amiga. No dia do meu casamento fizeram uma dança. Quando todo mundo foi embora, que eu fiquei sozinha, comecei a chorar. Custei a me acostumar.”

E o papai, era agressivo, muito instintivo? – Ele era bastante compreensivo. O primeiro filho veio quando faltavam 15 dias para completar um ano de casado. O maior prazo que fiquei sem engravidar foi três meses. O teu pai ficou preocupado, pensando que não era mais homem. Daí foi um filho atrás do outro, totalizando 15 filhos, dos quais morreram três.

E como foi criar 12 filhos? Muita decepção? Muito sofrimento? – Eu tinha raiva mas era passageira.  Uma coisa que me entristeceu muito foi quando eu peguei ele com xamego com uma empregada. Assim mesmo não deixei de atendê-lo . No mesmo dia ele me procurou e eu aceitei.

Quando eu morrer, espero ir para o céu. A gente tem pena de morrer e deixar os filhos. Só é o que penso. A igreja diz que a gente deve se preparar para a morte para não ser apanhado de surpresa. Por isto eu sempre chamo o Pe. Zé Neto para me preparar, porque a gente não sabe a última hora, se dá tempo…Tem predileção por algum dos seus filhos? – Gosto de todos, agora, o Cláudio, parece que gosta mais de mim do que os outros. E cita exemplos.

Quantos filhos, netos, bisnetos e tataranetos a senhora tem? – Doze filhos, 45 netos, 32 bisnetos e nenhum tataraneto. A filha da Lucinha já tem condições de me dar um, porque ela já é uma moça.

Tem alguma decepção porque nenhum dos filhos seguiu a política?- Eu tenho é prazer. Pra mim os políticos são uma decepção. Só isso.

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Esta criatura maravilhosa merece todo o carinho e respeito de sua prole no seu dia, hoje. Que ela receba o carinho e a ternura de todos os seus filhos do modo Abel Magalhãescomo merece. Que Deus a cubra de bênçãos, a fim de que possamos continuar tendo a sua benfazeja proteção durante muitos e muitos anos.

Felicidades!

*É bancário aposentado

3 COMENTÁRIOS

  1. Essa entrevista é histórica. Você, Abel, teve a felicidade de conseguir certas nuances que poucas pessoas dificilmente conseguiriam. Tem que ter jeito para a coisa. Achei interessante ela falar até de certas coisas íntimas e isso está registrado para a posteridade. Já pensou quando um bisneto ou mesmo um tataraneto ou qualquer outro descendente se interessar por uma pesquisa familiar, vai achar no portalfam um manancial a ser explorado e em particular essa entrevista com a nossa querida mãe! Essa entrevista é para ser revista de tempos em tempos, pelo menos anualmente!!!

  2. Não acredito que só encontrei isso agora, minha gente!!! Isso é de uma riqueza que não se tem tamanho. História oral, história cultural e história genealógica, tudo em um lugar só. Bisa Olivia morreu alguns meses antes de eu nascer e é interessantíssimo perceber o quanto eu aparentemente teria adorado tê-la conhecido. Estou descobrindo muitas coisas graças ao incrível acervo que o FAM nos disponibiliza. Obrigada, tio Abel Magalhães, por sempre estar tão comprometido com a memória de nossa família. O senhor é top!

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