Fernando – A República das Abelhas

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Título:  A República das Abelhas

Autor:  Rodrigo Lacerda

Editora:  Cia das Letras

 

Sinopse:

Com esse ótimo titulo e quebrando completamente o paradigma de um formato tradicional utilizado pela grande maioria dos escritores da atualidade, o Rodrigo Lacerda nos convida e nos conduz numa jornada que começa pelo final com os detalhes e eventos bio-morfológicos  que ocorrem debaixo da terra com o corpo humano pós morte, como se o sujeito morto, ainda consciente de si, contasse seus últimos momentos antes e depois da hora fatal.  Cronologicamente,  a boa saga começa  com  o suicídio de Getúlio Vargas.  “À sanha dos meus inimigos, deixo o legado de minha morte”.   É esse o bilhete, na verdade, uma charada,  deixado pelo ex-ditador, agora presidente eleito,  que sugere as tremendas desavenças e intrigas políticas  de um país ainda em estado de fermentação pré democracia. O livro, intrigantemente escrito na primeira pessoa por um neto do famoso, ferino e agitador das massas  Carlos Lacerda, comunista de carteirinha, deputado federal e governador do estado do Rio de Janeiro, recorrentemente nos embaraça o cérebro, que busca constantemente se auto localizar, como se estivéssemos   numa verdadeira colmeia de interesses políticos.  A  trama, baseada em fatos e documentos reais pesquisados intensamente  pelo autor, vai muito além da família, cuja genealogia está inteiramente  enraizada na política, desde o patriarca, magistrado bem sucedido  e avô do deputado e depois governador,  figura central do livro e tataravô do  escritor da obra Rodrigo Lacerda. Naturalmente, todos os homens e nenhuma das  mulheres dessa família são políticos e sempre de esquerda ou de extrema esquerda.  As mulheres,  como de costume,  são para cuidar dos filhos e do marido quando em casa. Como numa novela e seus capítulos diários, o autor nos prende à leitura,  descrevendo as peripécias e experiências de vida desse arrebatador e mais brilhante dos Lacerdas. Desde sua juventude  e iniciação política,  a exemplo do pai Maurício, Carlos atua fortemente e  disfarçado de jornalista  participa da maioria dos atos e eventos oposicionistas do país durante o governo Getúlio . Escreve bem e com uma visão  sonhadora e revolucionária comum a todo comunista, tenta inutilmente  mudar a consciência da população. Ainda na juventude, com pouco mais de 22 anos de idade,  para fugir da prisão iminente, por pura sorte se safou,  por agitação e oposição ao regime. Carlos Lacerda e um grupo de amigos  aventuram-se  pelo interior nordestino de minas gerais via rio são Francisco,  fazendo comícios políticos nas cidades ribeirinhas e dominadas por coronéis.  Tempos depois, já retornado ao Rio de Janeiro vive clandestinamente  em Copacabana com nome falso e continua agitando. Após sucesso como jornalista e sem dinheiro próprio, era filho de classe média, consegue, de forma bastante inteligente, montar um jornal, colhe recursos entre aliados e acionistas de visão semelhante politicamente. Chamado de  A Tribuna da Imprensa, Carlos Lacerda,  tem no jornal a  ampliação de  seu poder de  divulgação oposicionista. Fica famoso e chega a deputado federal e posteriormente a governador.  Contrapondo versões de outros autores,  inclusive o filme com o Tony Ramos, considero muitíssimo curiosa  a descrição do famoso episódio da tentativa de assassinato de Carlos Lacerda, a mando da guarda pessoal de Getúlio, ato que culminou com o suicídio e com o famoso bilhete, na época presidente eleito após exílio em São Borja.  O legado da obra é um tremendo aprendizado, principalmente sob a ótica  do sub mundo revolucionário comunista de uma época tão importante de nossa vida política recente. Carlos Lacerda curiosamente adora cultivar plantas, principalmente flores e também gosta de cachorros. Durante estada, em seu sítio, próximo às margens do Rio – Juiz de Fora, pouco depois de Petrópolis, com forte gripe, sente-se mal e arrasta-se de volta  pro Rio. Não se recupera  e morre prematuramente em um hospital em maio de 77 aos 63 anos. Único ponto frustrante do livro é a expectativa não atendida da mais importante fase adulta de  Carlos Lacerda como Governador combatente e arrebatador da população carioca e oposicionista   ao poder central. Penso que o autor nos brindará com similar e  brilhante trabalho com um eventual segundo livro.

 

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