2015 – 4º Abel Magalhães – Memórias do cárcere

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Memórias do cárcere

Graciliano Ramos

Número de páginas: 694 páginas

“Memórias do cárcere é o testemunho de Graciliano Ramos sobre a prisão a que foi submetido durante o Estado Novo. Uma narrativa amarga de alguém que foi torturado, viveu em porões imundos e sofreu privações provocadas por um regime ditatorial.
No livro, Graciliano descreve a companhia dos mais variados tipos encontrados entre os presos políticos: descreve, entre outros acontecimentos, a entrega de Olga Benário para a Gestapo, insinua as sessões de tortura aplicadas a Rodolfo Ghioldi e relata um encontro com Epifânio Guilhermino, único sujeito a assassinar um legalista no levante comunista do Rio Grande do Norte.
Durante a prisão, diversas vezes Graciliano destrói ou afirma destruir as anotações que poderiam lhe ajudar a compor uma obra mais ampla. Também dá importância ao sentimento de náusea causado pela imundice das cadeias, chegando a ficar sem alimentação por vários dias, em virtude do asco.
Da cadeia, Graciliano faz comentários sobre a feitura e a publicação de Angústia, uma de suas melhores obras”.

Trata-se de um testemunho cruel e desumano. É impensável um ser humano ser preso sem motivo aparente, apenas porque é dotado de boa formação cultural e de ter ideias próprias. Sentia a necessidade de ser um cidadão honesto, dedicado a preservar a coisa pública. Para pessoas assim, o governo via nelas inimigos, adversários ou mesmo comunista em potencial.

Sua resignação é surpreendente e demonstra muita firmeza em sua postura de homem íntegro.

No cumprimento de suas obrigações sucedia retardar-se no escritório e escrevendo, esquecia-se do tempo e o guarda vinha chamar-lhe a atenção, pois precisava fechar a repartição.

Já naquela época, diz, existiam maus políticos. Foi preso na Pajuçara, seguiu para Recife e daí para o Rio de Janeiro no porão de um navio imundo, acompanhado de inúmeros outros prisioneiros. Sua vocação para escrever não o deixava em paz. Quanto mais sofria as humilhações da prisão, mais se inspirava para registrar as infâmias. Sua descrição é tão forte que chega a “cansar” um pouco o leitor, de tanta mesmice.

Diz ele: “Nem uma palavra de acusação. Com certeza havia motivo para nos segregarem, mas aquele silêncio nos espantava”. E pergunta: Por que não figuramos em autos? Por que não havia depoimentos? Nem sequer falsos? Nada.

E assim, segue o registro da triste memória.

Antes de terminar a obra, Graciliano Ramos morreu. O livro ficou incompleto. Faltava apenas um capítulo. Escrevera tudo em trabalho contínuo, lento, mas sem interrupção. O fecho foi feito por seu filho, Ricardo Ramos, que deu a sua explicação final.

Graciliano foi preso em Maceió no dia 3 de março de 1936, permanecendo detido sem acusação formal até 13 de janeiro de 1937. Foi a vítima mais ilustre da repressão do governo Vargas.

Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de outubro de 1892, na cidade de Quebrangulo, Alagoas. Em 1899 mudou-se para Viçosa, Al; em 1905, foi para Maceió. Em 1910 mudou-se para Palmeira dos Índios, onde foi tomar conta de atividades comerciais do pai. Em 1927 é eleito prefeito de Palmeira dos Índios. Em 1929 envia ao governador de Alagoas o relatório de prestação de contas do município. Pela qualidade literária suscita interesse de editores para saber se ele tem outros escritos que possam ser publicados. Sua produção literária é muito grande.  Deixou cerca de 19 obras. E no dia 20 de março de 1953, morre no Rio de Janeiro.

Maceió, maio de 2015

Abel de Oliveira Magalhães

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2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente, também fiquei interessada na leitura e na vida do autor. Ter ideias próprias e pensamentos independentes era considerado subversivo e ameaçador.

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