2012 – 4º Abel Magalhães – Conversas com Vargas Llosa

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Conversas com Vargas Llosa

Ricardo Setti

Trata-se de obra escrita a partir de conversas gravadas entre os dois protagonistas, fruto de longas entrevistas incursionando o universo do escritor. É um documentário e tanto, que mostra as dificuldades naturais do profissional, suas ideias e desafios enfrentados para alcançar o objetivo.

Os dois têm convivência de mais de quatro décadas. São amigos especiais e sempre tiveram o hábito de conversar. Um é escritor e o outro é jornalista. De posse de um gravador, a missão fica mais fácil. O autor do livro diz que os dois sempre praticaram a antiga e refinada arte da conversação. Acrescenta que Vargas Llosa é um homem de conversa fácil, atencioso e cavalheiresco.

Ricardo Setti diz que Llosa “pertence à categoria de pessoas que cativam pela simpatia e cuja inteligência e interesse apaixonado por vasta gama de assuntos faz o interlocutor sentir-se da mesma forma igualmente apaixonado pelos mesmos assuntos”.

Desta forma, muitas horas foram dedicadas a gravações. Tudo começou nos idos de 1985, quando Setti passou três tardes conversando com Llosa, fazendo matéria para a revista Playboy. A entrevista foi tão longa e substanciosa que extrapolou o espaço da revista e foi aproveitada como complemento de livro.

Como todo escritor, Vargas Llosa dedicava grande parte de seu tempo a escrever. À mão e depois corrigia. Com o tempo, passou a utilizar o computador, passando pela máquina de datilografia sem, no entanto, esquecer o hábito original. Seu tempo, pois, é dedicado em sua maioria ao refinado hábito de escrever. Famoso, enfrenta inúmeros desafios. Dificilmente tem privacidade. A toda hora aparece alguém para pedir um autógrafo; questionar sobre qualquer coisa, muitas vezes sem ter nada a ver com o mister – economia, política, vida conjugal, sexo etc. Para a construção de uma obra, tem que viajar bastante, pesquisar e fazer contatos com pessoas necessárias ao objetivo. Por isto, viaja pelo mundo inteiro; fixa residência em várias partes do mundo e, via de regra, não dispõe de privacidade. Mesmo com toda essa falta de tempo, para o repórter Ricardo Setti o escritor sempre foi atencioso. Inúmeras foram as horas de gravação para fazer o livro que, por outro lado, originou inúmeros outros frutos do gênero.

Na busca incessante dos elementos necessários para a feitura de seus vários livros, além das viagens indispensáveis, enfrentou dificuldades maiores para conseguir o que queria. Um desses exemplos foi a pesquisa feita no sertão da Bahia para escrever o livro Guerra do fim do mundo, obra inspirada no livro “Guerra de Canudos”, do brasileiro Euclides da Cunha. Durante quatro anos viajou muito desde o Brasil até os Estados Unidos, passando pela Europa. Visitou o sertão baiano e fez contatos com os nativos em busca dos elementos indispensáveis para a confecção do trabalho. Enfrentou dificuldades, adversidades e a desconfiança das pessoas do lugar. Em compensação reviveu cenas que jamais esperava reviver.  Ao fim e ao cabo, sentiu-se realizado com mais uma obra de sua lavra.

Para concluir, Vargas Llosa, que era filho único, só conheceu seu genitor aos dez anos de idade, quando seus pais, separados, se reconciliaram. Julgava-o morto. Consta que não se relacionava bem com ele. Sua vocação para a literatura veio de criança, mas o pai não aceitava. Dizia que era coisa de maricas. Enfrentou o pai, mas, sobre o que lhe ficou de bom do pai tirânico, com o qual manteve uma relação dificílima, a que não faltaram medo e hostilidade, a resposta genial: “Talvez eu deva muito a meu pai – sua oposição à minha vocação de escritor, que ele considerava coisa de boêmios ou de maricas, foi tão feroz que, resistindo a ele,acabei abraçando-a definitivamente, e não poderia conceber a vida sem ela”.

De minha parte, gostei do livro, principalmente porque achava que a vida de um escritor seria sempre assim, cheia de desafios e dificuldades. O fato de receber homenagens e viajar o mundo todo faz parte do ofício, lembrando o detalhe de que as coisas são distintas em sua essência. Cada atividade tem seu preço. E o bom mesmo é fazer as coisas sem obrigação. Quando vira profissionalismo, fica meio sem graça.

Encerro dizendo que estou muito contente por ter lido mais um livro. O hábito da leitura é uma das coisas mais importantes na vida de um ser humano, pois preenche o tempo ocioso e enriquece o seu conhecimento. E se for aliado à música especial, transforma-se numa espécie de prêmio.

Abel de Oliveira Magalhães

Maceió, 26/03/2012

 

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