Wirley – Loucuras de um aventureiro—Continuação II

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Loucuras de um aventureiro—Continuação

 

 

 

“Bem que poderia vir uma chuva forte“- pensei. E não é que choveu?  Uma chuva tão forte que molhou até a alma. Poças d’água formavam-se em toda a pista. Nossos tênis estavam pesados, encharcados. Esplêndido! Um espetáculo da natureza!  Estávamos verdadeiramente felizes e agradecidos pela chuva. Ela tinha de ter acontecido em nossa aventura. Paramos na “Churrascaria e pousada Riacho do Sertão“, em Jaramataia, local bonito e acolhedor para um breve lanche e fotos. A foto foi possível, mas o lanche tivemos que nos contentar com o que levávamos em nossa bagagem:  algumas bananas e suco de acerola, pois, afinal, era Sexta-Feira Santa e também no sertão, feriava-se. Seguimos até a entrada de Major Isidoro, mais 10 km, onde um out door dizia: “Major Isidoro, a terra do leite“.  Pensei: “Aqui tira-se leite até de pedra“. Para todos os cantos que se olha só se vê pedras. Ressalvado algumas paradas para beber suco ou água, a última parada  filé da viagem foi na chegada de Batalha, antes da ponte, onde paramos para tirar foto.  Às 7:00 da manhã entramos numa estrada de barro a esquerda  da cidade, circulando-a . A partir daí começaria o verdadeiro desafio da viagem. Subidas íngremes com muitas pedras e descidas também. Parecia que tinha mais subida que descida. Dizem que após uma subida, você tem que descer. Só que esqueceram de colocar  descidas maiores. Após cada subida, havia pequenas descidas que mal davam para esquecer as subidas e outra subida ainda maior aparecia. E eram subidas com muita pedra que até mesmo os carros subiam com dificuldade. As descidas maiores também tinham pedra, de forma que não podíamos embalar a bicicleta, mas nos contentar apenas em frear e frear, apesar da vontade de correr. Muitas retas eram de areia pura, cuja condição de andar  era empurrando. Numa tentativa insistente de pedalar, o tombo foi inevitável. Alegrias à parte, gargalhadas inesperadas foram ouvidas. Não imaginávamos o sofrimento que se avizinhava. Programamos chegar ao destino no máximo às oito da manhã. Chegamos às 11:30. Às 10:30 começamos a sentir fome, muita fome. E só aparecia  estrada e mais estrada, curva e mais curva, ladeira e mais ladeira. Pequenos e solitários  povoados, uns com e outros sem energia. Uns habitados, outros não. Nos lugares com energia, muitos moradores eram proprietários de antena parabólica. No sol escaldante do sertão, a fome apertando cada vez mais. Só não comíamos pedra porque não tínhamos pimenta para misturar. E cada vez que perguntava se estava próximo, meu “guia“ respondia que ainda faltava um terreninho. O pior era que ele não mentia e cada vez mais a casa parecia que não chegava nunca. Uma sombra no fim de uma ladeira nos refrescou o desespero. De um lado, tudo seco. Do outro, também. Alguns pés de juazeiro mantinham-se verdes em contraste com a caatinga. Um trator vinha subindo a ladeira. Sinal de que outras vidas também trafegavam naquelas estradas. No volante, para nossa surpresa, estava Genival, irmão do Jailso, o guia. Alegria geral. Trator desligado e na garupa seus dois filhos e a esposa faziam-lhe companhia. Ele não acreditava no que estava vendo e nem que fosse para ganhar uma moto nova, não teria coragem de fazer o que nós fizemos. Alegrias abrandadas, nos convidou para trocar as bicicletas pela garupa do trator. Não aceitamos e descobri que estávamos próximos. Nos despedimos.  Trator na frente. Sumiu. Se não no céu, mas pelo menos no inferno haveremos de chegar. Uma curva à direita, uma pequena reta, uma curva à esquerda. Na frente, um trator parado,  parecido com aquele que nós encontramos. Será que chegamos? Tava  difícil de acreditar, afinal não havia ninguém nos esperando. Nenhuma banda de música, nenhuma autoridade. Não ouvi nenhuma saraivada de tiro, nenhuns fogos de artificio… Nada. Isso não tem importância, afinal, era verdade, nós chegamos. Che-ga-mos! Graças a Deus. Repouso, água, repouso.  Nunca um chão frio e limpo foi tão bem vindo. Até a fome teve que esperar. Almoçamos. Imagine a fome.

Areias, o retorno e as grandes lições da aventura na próxima edição…

 

 

`Wirley.

 

 

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