Wirley – Loucuras de um aventureiro (1ª parte)

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LOUCURAS DE UM AVENTUREIRO

Wirley Carles

 

A idéia surgiu quatro semanas atrás.  Perguntei  a um vizinho se ele teria coragem de irmos de bicicleta até o sítio onde seus pais moram. Idéia aceita  de imediato  com a preocupação de que a viagem seria longa e portanto teria que ser planejada. Este meu vizinho tem vinte anos  e acaba de sair do exército. Eu. com meus  trinta e quatro anos, enferrujado, incapaz  de resistir  a uma caminhada longa, precisava entrar em forma. Marcamos a aventura para o dia 02 de abril, na sexta-feira santa. Iniciamos caminhadas leves, de aproximadamente uma hora por dia e com boas companhias. D. Leninha, minha esposa, era uma delas e de tão boa que era, atraia outras também agradáveis, de forma que houve dias em que éramos oito a caminhar com o mesmo objetivo:  melhorar a resistência, diminuir o peso e rejuvenescer – ser jovem. Outras pessoas também encontrávamos no caminho, muitas outras.  Havia um trecho de aproximadamente dois km, uma avenida asfáltica de belíssimas casas, de verdadeiras mansões, de verdes exuberantes e de aromas deliciosos com barreiras policiais protegendo contra automóveis agressivos e poluentes, que era freqüentado por muitas pessoas conhecidas e não conhecidas, acompanhadas ou só, crianças, lindas adolescentes, adultos, velhos e velhas dispostos e contentes, dando “bom dia“ a cada encontro.  Essas caminhadas estavam dando o efeito esperado. Todos os dias fazíamos a caminhada das cinco da manhã às seis e trinta.  Era uma feira de gente caminhando.  Nos sábados,  aumentávamos o percurso, sendo que de bicicleta.

 

A VIAGEM

Data:  02/04/99

Sexta feira Santa.

O dia.

Acordamos às 3:15 da manhã. Bicicleta pronta, suco pronto, sacola pronta, tudo pronto.

Pose para a foto da saída. Às  3:45 estávamos saindo de casa. Às 4:00 horas nos despedíamos de Arapiraca. A lua estava linda e encantadora. Parecia que compartilhava a nossa aventura. Bem dizia Luiz Gonzaga “Não ‘ha,  ó gente, ó não, luar como esse do sertão.“

O local aonde estávamos indo se chama “Areias“, um singular povoado de poucas casas separadas uma das outras, pertencente ao município de Traipu. Estávamos indo por Batalha, bem mais distante e com um percurso maior de estrada de barro. Estrada de barro não, muitas pedras, muitos buracos, muita areia… muito tudo. Isso foi possível graças à incompetência do “guia“ que, por medo de errar o caminho mais perto, nos guiou pelo mais distante. Só descobri isso quando da chegada, quando as pessoas comentaram sobre a outra estada.

Até  Jaramataia são exatos 35 km. Poucos minutos antes das cinco, o sol majestosamente mostrava a sua força, sem verdadeiramente surgir no horizonte. Tudo estava claro. Aquela claridade que não se via o sol, mas que se sabe que vem dele. Os campos estavam limpos e secos, como se esperasse uma chuva esperançosa. A brisa, naquele momento, era maravilhosa nos permitindo uma sensação deliciosa. Jailso, meu companheiro de viagem, de vez em quando gritava: “Wirley, cheira o ar!!!”, como se eu não respirasse com prazer aquele oxigênio.

Muitas coisas me deixaram fascinado  no sertão. A principal delas foi o ar, a brisa noturna. Até Jaramataia, o ar por várias vezes se transformava. Pela sensação que provocava, parecia que tinha forma, cor e nos transportava a uma “viagem“ alucinante e feliz. Parecia que tinha 16 anos.

O povo do sertão é muito forte, corajoso e resistente. Sua esperança se baseia na fé. A seca é grande, mas o sertanejo insiste em plantar. Só falta água. Tem terra boa, tem povo trabalhador e honesto e muito gado sobrevivendo a alternativas de alimentos: palma, bagaço de cana, sal, palha de milho e até cascas de arroz. Pôr falta d/água perde-se muito gado. Isso só acontece pôr falta de política do governo.

De repente uma chuva em pleno sertão.  Uma chuva fraca mas, muito refrescante.  Na frente, meu  companheiro de aventura seguia em sua bicicleta.

 

(Continua na próxima edição)

 

“Bem que poderia vir uma chuva forte“- pensei. E não é que choveu !  Uma chuva tão forte que molhou até a alma. Poças d`agua formavam-se em toda a pista. Nossos tênis estavam pesado, encharcado. Esplêndido. Um espetáculo da natureza.  Estávamos verdadeiramente felizes e agradecidos pela chuva. Ela tinha de ter acontecido em nossa aventura. Paramos na “Churrascaria e pousada Riacho do Sertão“, em Jaramataia, local bonito e acolhedor para um breve lanche e fotos. A foto foi possível, mas o lanche tivemos que nos contentar com o que levávamos em nossa bagagem:  algumas bananas e suco de acerola, pois, afinal, era Sexta feira Santa e também no sertão, feriava-se. Seguia-mos até a entrada de Major Izidoro, mais 10 km, onde um out. dooutdorodor dizia: “Major Izidoro, a terra do leite“.  Pensei: “Aqui tira-se leite até de pedra“. Para todos os cantos que olha só se ver pedras. Ressalvando algumas paradas para beber suco ou água a ultima parada  filé da viagem foi na chegada de Batalha, antes da ponte, onde paramos para tirar foto.  Às 7:00 da manhã entramos numa estrada de barro a esquerda  da cidade, circulando-a . A partir daí começaria o verdadeiro desafio da viagem. Subidas íngremes com muitas pedras e descidas também. Parecia que tinha mais subida que descida. Dizem que após uma subida, você tem que descer. Só que esqueceram de colocar  descidas maiores. Após cada subida, haviam pequenas descidas que mal davam para esquecer as subidas e outra subida ainda maior aparecia. E eram subidas com muita pedra que até mesmo os carros subiam com dificuldades. As descidas maiores também tinha pedra, de forma que não poderíamos embalar a bicicleta, mas contentar apenas em frear e frear, apesar da vontade de correr. Muitas retas eram de areia pura, cuja condição de andar  era empurrando. Numa tentativa insistente de pedalar, o tombo foi inevitável. Alegrias a parte.  Gargalhadas inesperadas foram ouvidas. Não imaginávamos do sofrimento que se avizinhava. Programamos chegar ao destino no máximo as oito da manhã. Chegamos as 11:30. Ás 10:30 começamos a sentir fome, muita fome. E só aparecia  estrada e mais estrada, curva e mais curva, ladeira e mais ladeira. Pequenos e solitários  povoados, uns com energia, outros sem. Uns habitados, outros sem. Os lugares com energia, muitos moradores eram proprietários de antena parabólica. No sol escaldante do sertão, a fome apertando cada vez mais, Só não comíamos pedra porque não tínhamos pimenta para misturar. E cada vez que perguntava se estava próximo, meu “guia“ respondia que ainda faltava um terreninho. O pior era que ele não mentia e cada vez mais a casa parecia que não chegava nunca. Uma sombra no fim de uma ladeira nos refrescou o desespero. De um lado tudo seco. Do outro, também. Alguns pés de juazeiro mantinham-se verdes em contraste com a caatinga. Um trator vinha subindo a ladeira. Sinal de que outras vidas também trafegavam naquelas estradas. No volante, para nossa surpresa, estava Genival, irmão do Jailso, o guia. Alegria geral. Trator desligado e na garupa seus dois filhos e a esposa faziam-lhe companhia. Ele não acreditava no que estava vendo e nem fosse para ganhar uma moto nova, não teria coragem de fazer o que nós fizemos. Alegrias abrandadas, nos convidou para trocar as bicicletas pela garupa do trator. Não aceitamos e descobri que estávamos próximos. Nos despedimos.  Trator no frente. Sumiu. Se não no céu, mas pelo menos no inferno haveremos de chegar. Uma curva a direita, uma pequena reta, uma curva a esquerda. Na frente um trator parado,  parecido com aquele que nos encontramos. Será que chegamos ? Tava  difícil de acreditar, afinal não tinha ninguém nos esperando. Nenhuma banda de música, nenhuma autoridade. Não ouvi nenhuma saraivada de tiro, nenhum fogo de artificio… Nada. Isso não tem importância, afinal, era verdade, nós chegamos. Che-ga-mos. Graças a Deus. Repouso, água, repouso.  Nunca um chão frio e limpo foi tão bem vindo. Até a fome teve que esperar. Almoçamos. Imagine a fome.

 

 

Areias, o retorno e as grandes lições da aventura na próxima edição…

 

 

`Wirley.

 

 

(tio Abel, pôr favor, melhore o que você puder. Saiba que confio na sua lapidação. Vai em disquete como forma  de diminuir seu trabalho de entendimento.)

 

 

 

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