Wirley – Loucuras de um aventureiro (continuação)

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Areias (Continuação de “Loucuras de um Aventureiro

 

 

 

“SE UM HOMEM FALA OU AGE COM O PENSAMENTO PURO, A FELICIDADE O ACOMPANHA COMO UMA SOMBRA QUE JAMAIS O DEIXA.”                                                                                                Buda.

 

 

 

A seca combina com o sofrimento. O nordestino vence o sofrer com a fé. A seca combina com a fome. O nordestino vence o alimento com a determinação e a esperança.

Areias é um lugarejo de casas humildes, uma aqui outra lá  adiante, onde todos se conhecem. Não tem energia elétrica, não tem água encanada, telefone e nem ônibus ou carro ligando-a a algum lugar em horário certo. Distante de tudo e de todos, bem próxima do fim do mundo, sua solidão é quebrada com a presença de um rádio de pilha que freqüentemente é usado e cujas pilhas jamais podem faltar. Grandes lições foram absorvidas neste passeio. A riqueza do nordestino não está na seca , mas na  forma de vencê-la. Habilmente eles armazenam alimentos básicos para vencer a estiagem. Criam animais para comércio quando precisam de algum dinheirinho.

Nossa chegada a Areias era esperada. Depois de andar 84 km de bicicleta, sendo 24 km de pura estrada de barro, achávamos que chegaríamos mortos de cansaço. Engano nosso. O limite físico não se baseia no que já fora realizado, mas no que achamos que talvez pudéssemos realizar. Estávamos bem. Após breve descanso, almoço. Uma tarde relaxante observando o remexer dos ventos, única alternativa para minimizar o calor do sertão. Um bate papo informal  com a família reunida. Esquecendo de que estávamos numa sexta-feira Santa e portanto passível de jejum, lanche: coalhada, bolo de milho, café torrado e suco. No radinho, único meio de comunicação com o mundo, músicas religiosas, mensagens de ressurreição e missa. Nossas mentes, relaxadas e distante do mundo lá longe, preocupava-se apenas com a hora de voltar. Combinamos sair às 2:30 da manhã e recebemos todas as instruções para percorrer a nova estrada, mais próxima e de melhor tráfego. Deitei às 19:00h, após ter jantado à luz de lampião. Lá fora um escuro tremendo dizia que a noite era para dormir. Deitado, janela aberta, céu estrelado. Nada de lua. O luar sairia mais tarde. Tentei dormir. Pensei nos meus filhos, na minha mulher que em casa ficou, aborrecida por aquela aventura. Ela deveria estar com a gente.  “Olhos novos” são o melhor remédio para “viagens” saudáveis. Não consigo dormir. A família está excitada com a nossa presença. Voluntariamente reunidos na varanda, abaixo da janela próxima da cama que tento dormir, conversavam animadamente. Cada ‘causo’ lembrado por seu Juvenal, era motivo para gargalhadas. Estavam presentes seu Juvenal,  D. Merentina, suas duas filhas e dois filhos, entre eles Jailso e mais seis netos. Somente eu queria dormir. Talvez pelo instinto de responsabilidade, pois, afinal no dia seguinte teria que trabalhar pontualmente às 8:00h do sábado. Consegui dormir. Acordei. Um silencio profundo nas redondezas. Nem rádio, nem gente, nem bicho, nem mosquito, nem grilo… Nada. Silencio total. Que horas seriam ?  Não dava para ver no escuro. Não tinha interruptor para acender. Não tinha como saber…(!)  A janela estava aberta !  Levantei silenciosamente, pulei a janela e sob um luar maravilhoso pude ver as horas. Faltavam poucos minutos para a meia noite. O sertão estava em silencio. Lá longe, bem distante, podiam-se ver pontinhos de luzes, imaginando ser algum povoado. Voltei para a cama. Torci para passarem rápido as horas. Achava tudo aquilo muito estranho. Sem a minha mulher do lado, as luzes e o barulho da cidade grande me deixava apreensivo, saudoso. Relaxei. Cochilei. Despertei. Mais uma vez fui ver a hora. Eram quase duas da manhã. Hora  ideal para se preparar para o retorno. Acordei o guia e o restante do pessoal da casa.  Saboreamos um delicioso cuscuz com leite, algo que também deveríamos ter feito na saída de Arapiraca e nos despedimos do pessoal.

 

Retorno

(Na próxima edição)certeza bem melhor do que a ida. Estradas bem melhores,  com mais descidas e sem areias, algumas pedras e planos para verdadeiros pegas. Pontualmente saímos ás 2:30hs da manhã. Galos pôr todos os cantos anunciavam a madrugada. A lua era uma parceira boa. Clareava dentro do seu limite. Não era um sol, mas clareava. A estrada era estreita e mal cabia um carro. Como era bem freqüentada, sem buracos, era bem boazinha para pedalar. Na beira da estrada, pequenas arvores e ramos nas cercas, sombreavam o caminho. De repente, uma bifurcação. Direita ou esquerda. Lembramos das instruções: Entrar sempre a esquerda ! e foi o que fizemos. Optamos pela esquerda, descemos uma pequena inclinação, passamos pôr uma casa e mais na frente percebemos que a estrada estava pouco freqüentada, como se quisesse estreitar. A estrada estava errada, pensamos. Retornamos imediatamente a bifurcação e dessa vez escolhemos a da direita. Após poucos metros, um campo de futebol. Lembramos mais uma vez das instruções: “quando vocês virem um campo de futebol no lado direito, podem entrar a esquerda! “. Retornamos a bifurcação e entramos com toda a certeza na estrada da esquerda. Demos o máximo de nossas bicicletas, passando pela pequena descida e depois a casa, e de repente a estrada estreita se acaba, dando de frente com duas casas simples de varanda e numa delas um homem dormia numa rede. Que fria !  Voltamos silenciosamente.  De volta ao começo e dessa vez sabíamos que direção tomar. Tínhamos certeza de que aquele não era o campinho indicado para entrar a esquerda. Ele demoraria a aparecer. A direita de tudo, corremos o que pudemos para tirar o tempo perdido e não poderíamos nos perder de novo. Nosso desafio era chegar ás 8:00hs  em  Arapiraca e se tudo caminhasse bem, poderíamos até chegarmos antes. Depois de muitas subidas e descidas, curvas a esquerda e a direita, num topo de uma ladeira, circulando uma serra, vimos distante luzes de uma cidade. Seria Traipú ? Eram muitas luzes, enfeitadas com  neblina. Muito bonita a visão. Eram quase quatro horas da manhã. Logo após descer a ladeira, passamos pôr um trecho onde a estrada se confundia com  o leito de um rio seco. Interessante aquele lugar. Uma estrada a direita nos conduziria a Traipú. Entretanto pegamos a da esquerda, pois, era preciso encontrar a pista que no conduziria a nossa cidade. Mais ladeiras, mais serras, mais estrada. Numa das subidas, o silencio impregnado em nossas mentes, o susto: um jeque azurrava bravamente, como a nos cumprimentar pôr aquela aventura maravilhosa. Aliás era o que mais encontrávamos naquelas estradas sem fim.  Encontramos o campo de futebol e entramos a toda velocidade a esquerda. Chegamos a um lugarejo chamado “olho dàgua da cerca”. Parecia uma cidade fantasma. Ruas estreitas, com calçamento e uma praça ao centro, além da igreja e muitas casas até elegantes, mas tudo deserto. Não havia uma só pessoa para a gente dar bom dia. Eram pouco mais das 4:00hs da manhã. Continuamos nossa viagem, sem fome e sem sede. Nossas bicicletas até que estavam agüentando bem. Ás 5:00hs em ponto chegamos na pista asfaltica já meio caminho de Traipú. De tanto rodar nas estradas de barro, andar na pista era brincadeira. Até mesmo subindo nas maiores ladeiras ficava leve pedalar. Numa delas se avistava lá longe Girau do Ponciano e já se beirava ás 6:00hs. Pelas contas imaginativas, daria para chegar em Arapiraca ás 7:30hs. Ledo engano. A cidade estaria ainda distante. O sol estava com preguiça e se escondia entre as nuvens. Ás 6:10 paramos no Girau  pôr 15 minutos para lanchar. Meu companheiro e guia, pediu que a partir daquele instante continuássemos de carro, ele já estava com as nádegas em pandarecos. Não aceitei, afinal, faltava pouco ou pelo menos mais da metade do caminho já tínhamos percorrido e não ficaria bem chegar em casa dizendo “andamos de bicicleta até tal canto e depois de carro até em casa”. Os objetivos seriam mudados e não era legal isso. De Girau do Ponciano até Lagoa da canoa são 12 km. Uma placa enorme informava. A pista, estava bastante movimentada. Carros indo e vindo na maior velocidade nos deixavam apreensivos. Faltam 5 km até a Canoa. Só 7 vencidos e eram quase 7 horas. Nossa cadência estava lenta. Em todos os momentos da vinda estive no comando da dianteira e sempre preocupado com o parceiro que se distanciava atrás. Pôr várias vezes tive que esperá-lo. Numa delas perguntei se ele estava bem e ele respondeu que não estava doente que Eu pudesse seguir em frente. Tentei aumentar a velocidade. Em alguns momentos tínhamos que caminhar para melhorar as pernas e pedalar mais rápido. Minha mente se transportava para Arapiraca. Já sabia que ia chegar atrasado no trabalho e imaginava o que os patrões iriam pensar. Afinal, estava há uma semana no emprego. Diante desse pensamento, crescia meu desespero e com forças tiradas não sei de onde, aumentava a velocidade da bicicleta. Passamos pôr Lagoa da Canoa e já passava um pouco das 7:00hs. Após a primeira curva, numa descida e uma reta enorme que dava para ver Arapiraca bem distante. Faltavam 15 km. Pedalamos, pedalamos, caminhamos, pedalamos. Nossas pernas estavam bambas. Nossos traseiros, assados. Nossas mentes, aflita em chegar na hora.  Entramos em Arapiraca poucos minutos depois das 8:00hs. Na hora que ia passando de frente a casa da vovó, lembrei do seu telefone. Não pensei duas vezes. Parei, corri, corri mesmo para o seu interior e para minha surpresa encontrei com o tio Abel. Foi um grande prazer encontrá-lo, pois foi como se estivesse fechando a aventura com chave de ouro. Liguei para o meu trabalho, informei que chegaria atrasado e com certeza, o resto do dia fora apenas recordações e nada mais. A sensação que senti, após a aventura, era que todos as baterias da vida foram reabastecidas ao máximo e que um dia talvez poderia ser repetida.

 

 

 

Wirley.

 

 

 

 

 

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