Ecos do Rio – Almoço tragicômico

2
918

Ecos do Rio – Outubro/2003

 

Almoço tragicômico

Uma das formas mais representativas do carinho e apreço que se pode nutrir por alguém que nos visita é convidá-lo para um almoço com a família. O ambiente aconchegante conduz anfitriões e visitantes a um clima da mais pura descontração e alegria. É um momento bastante especial para troca de informações sobre parentes e amigos próximos. Todos temos experiência no assunto, pois já recebemos e já fomos recebidos. Deve-se ressaltar, contudo, que, mais importante do que o sabor das iguarias servidas, é a satisfação de ver o convidado completamente à vontade e feliz ao lado daqueles que o recebem.

No dia 17 de agosto último recebemos a Eline e o Felipe que estavam de passagem pelo Rio. Era um domingo e a Fátima tinha Eline e Felipeacordado mais tarde que o de costume. Na noite anterior havia sido acompanhante da neta mais velha, a Andressa, a uma festa de
aniversário e tinham chegado muito tarde. Não seria justo pedir a ela que fizesse um almoço às pressas. Telefonei para a Rita e a Carla pedindo sugestões. Resolvemos ir a um restaurante onde uma semana antes lá estivéramos recepcionando o Marcus que viera ao Rio a chamado da Petrobrás*. Ocupamos uma mesa com onze lugares. Casa completamente lotada, com fila na entrada. O ritual era o mesmo de qualquer churrascaria Rodízio, garçons atentos e dinâmicos fazendo de tudo para que todo tipo de carne fosse muito bem servido. Enquanto a maioria já se aproximava do final da refeição, Eline e Carla, pela preocupação de mães em atender seus filhos Felipe e Victoria, ainda estavam começando. Eu, particularmente, já tinha terminado, saboreando apenas os últimos goles daquele refrigerante tão apreciado do Betinho. Já estava até me preparando para pedir a conta, quando, de repente, uns estouros semelhantes ao do pipocar de foguetes e fogos de artifício despertam a nossa atenção. Num primeiro momento, apesar da proximidade do ponto de origem, cheguei a imaginar que estavam querendo homenagear alguma figura importante da sociedade tijucana. Mas os estampidos aumentavam de continuidade e de intensidade. Em frações de segundos, foi um corre-corre generalizado. Estabeleceu-se, então, um verdadeiro pânico, todos querendo fugir ao mesmo tempo daquele lugar de quase terror. Pessoas idosas, mães e pais com crianças no colo, apressadamente deixando o local. Umas duas senhoras da terceira idade, no meio do tumulto, tropeçaram e caíram sobre as mesas e se machucaram. A Carla corre até o banheiro em busca da Victoria que tinha ido lá um pouco antes de tudo começar.

Não nego minha apreensão, mas fiquei parado no mesmo lugar, observando as fagulhas e faíscas elétricas acompanhadas de estrondos que vinham do quadro de disjuntores. Era um curto-circuito no painel de controle e me preparava para sair quando volta ao local o Silvinho procurando bolsas de algumas mulheres que, na pressa, esqueceram de levar. Nesse momento, um dos chefes ou responsáveis do estabelecimento se aproxima, apavorado, com um extintor de incêndio. Alguém, então, grita: “Esse não!” Era de água, proibido para uso em eletricidade. Por pouco, o próprio dono do negócio não se tornou vítima fatal.

Passado o ponto alto do susto, dirigi-me à saída. Lá fora, com semblantes de preocupação, todos queriam saber o motivo da minha demora. “Não vá me dizer que estava esperando para pagar a conta”, alguém falou. No tumulto, não há condições para isso. Ninguém põe essa preocupação em primeiro plano, embora eu tenha ficado pensando no prejuízo do proprietário.

Saímos caminhando, ainda sem definição de rumo, e comentando as cenas vistas e vividas como personagens. Foi quando a Carla lembrou: “Pai, eu, a Eline e a mamãe não terminamos o almoço”.

Do TCHAN (nome do restaurante onde ocorreu a quase tragédia) até o Garota da Tijuca (churrascaria onde terminamos o almoço) são aproximadamente 200 metros, tempo e espaço gastos em comentários hilariantes sobre o que havia ocorrido. Risos e até gargalhadas foram observados, como se tivéssemos assistido a uma comédia e não a uma quase tragédia. Os tombos das velhinhas e a minha demora em sair do recinto foram, sem trocadilho, um prato cheio para animar as conversas no itinerário e no novo restaurante. Conclui-se então que, por trás de uma tragédia, vista e analisada depois, acontecem fatos que provocam o riso, característica maior da comédia. Mas ambas são educativas. Delas, podemos tirar proveito e ensinamentos.

Do almoço tragicômico ficou uma grande lição: como devo me comportar num momento de pânico para evitar conseqüências danosas ao corpo e à alma? E como me resguardar num tumulto?

A lamentar apenas a falta de uma filmadora para registrar, para os amigos, algumas cenas que nossas retinas gravaram para sempre na nossa memória.

*José não se conforma em escrever o nome da empresa sem o acento

Compartilhar

2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

*