Ecos do Rio – O poder mágico de uma boa leitura

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O poder mágico de uma boa leitura

 

A inspiração desta crônica nasceu de uma notícia ouvida no Jornal Nacional no mês passado. Uma garota de 10 anos pediu à mãe que encomendasse uma pizza para comer com uma colega que a visitava. Atarefada com os afazeres da casa, a mãe mandou que a filha pegasse a Rio Listas (Páginas Amarelas) e descobrisse o telefone de uma pizzaria. Carol, esse o nome da menina, já pressentindo o sabor de sua iguaria preferida, não perdeu tempo, correu ao local onde estava o catálogo telefônico e, ao folhear as primeiras páginas, deteve-se na leitura da matéria que geralmente abre aquelas publicações. Era uma crônica sobre a vida e a obra de Portinari. Ficou tão impressionada com a leitura que esqueceu da pizza, pelo menos naquele momento. Apaixonou-se pelo que acabara de ler, identificando-se com algumas passagens da vida do pintor famoso.

Envolvida ainda de entusiasmo por aquela leitura, no dia seguinte, Carol levou o catálogo telefônico para a escola, mostrou-o à professora e pediu para ler e discutir com os colegas a importância da obra de Portinari para a história do Brasil da época em que ele viveu. Recebeu apoio e estímulo da professor, mobilizando toda a escola. Disse ela aos colegas que o que lhe chamou a atenção de imediato foi ler que Portinari, nascido em Brodósqui, pequena cidade do interior de São Paulo, não foi além do terceiro ano primário, e já aos dez anos, mostrando o talento que marcaria sua vida artística, pintara o Retrato de Carlos Gomes, seu primeiro desenho conhecido e famoso. Ficou impressionada, também, com o seguinte depoimento do escritor Jorge Amado:

“…Cândido Portinari nos engrandeceu com sua obra de pintor. Foi um dos homens mais importantes do nosso tempo, pois de suas mãos nasceram a cor e a poesia, o drama e a esperança de nossa gente. Com seus pincéis, ele tocou fundo em nossa realidade. A terra e o povo brasileiros – camponeses, retirantes, crianças, santos e artistas de circo, os animais e a paisagem – são matéria com que trabalhou e construiu sua obra imorredoura…”

A mobilização da Carol extrapolou os muros da sua escola. Como recompensa pela iniciativa, ganhou uma viagem à terra natal de Portinari, sendo recebida pelo filho do pintor famoso, João Cândido, que lhe propiciou conhecer outras obras-primas do acervo do seu pai e o local onde trabalhou por muito tempo.

Portinari, além de pintor, foi também poeta. Fez, contudo, uma confissão pública de alto valor significativo para o mundo das letras. Em seu livro “O Menino e o Povoado”, uma seleção de seus poemas feita por Manuel Bandeira, em 1964, revelou na introdução:”…Quanta coisa eu contaria se soubesse a língua como a cor…”

O motivo da homenagem da Rio Listas 2003/2004 a Cândido Portinari soma-se a uma série de eventos comemorativos do centenário do nascimento, este ano, do mais consagrado pintor nacional, falecido em 1962. E, para aqueles que se interessarem um pouco mais pela produção artística e pela vida do homenageado, uma sugestão: visitem os sites

www.portinari.org.br   e/ou

www.telelistas.net/portinari

Caro leitor, o fato narrado aconteceu na realidade. Acredito até que alguns de vocês possam testemunhar, caso tenham tido a oportunidade de ter assistido ao Jornal Nacional no dia em que a notícia foi ao ar. Cada espectador recebe uma notícia de acordo com a sua formação e informação de mundo. Para mim e para a Carla, essa notícia teve um sabor especial, pois havia duas semanas aproximadamente tínhamos escolhido alguns parágrafos da referida narrativa para serem explorados em uma prova de Línguas Portuguesa. Ficamos muito felizes por relacionarmos um texto que, dias depois, provocaria tanta emoção em uma criança que, com apenas 10 anos, já demonstra grande sensibilidade diante de uma boa leitura.

Tenho sido um pouco repetitivo mas não custa reafirmar que uma boa leitura é a que mexe com os nossos sentimentos e que, por isso, fica retida em nossa mente por muito tempo ou até por toda a vida.

A emoção da Carol foi semelhante à que senti quando eu tinha mais ou menos a idade dela e ainda, de calças curtas, estudava no Adriano Jorge. Não lembro o nome do livro nem do autor da história que li naquela época. Só sei que me impressionou bastante, por isso continua viva na minha memória.

 

A história:

Um habitante dos cafundós dos Judas, premido pelas necessidades básicas de subsistência, abandonou a terra natal e foi para a cidade grande. Trabalhou muito, lutou muito. Estudou o suficiente para conseguir um bom emprego.

Depois de muito tempo, resolveu voltar a passeio à sua terra para ostentar a transformação socioeconômica por que passara. Comprou terno, gravata e sapatos novos para impressionar os parentes e amigos que lá deixara. Viajou de ônibus até um determinado lugar de onde, para prosseguir, tinha de atravessar um rio que estava cheio. O único meio de transporte naquele momento era uma pequena canoa, cujo proprietário ganhava a vida fazendo transporte entre as margens opostas, quando aparecia serviço. Ao começar a travessia, com a maior empáfia, estabeleceu com o canoeiro o seguinte diálogo:

  • O amigo sabe geografia?
  • Não senhor…
  • O amigo perdeu um quarto de sua vida.
  • O amigo sabe linguagem?
  • Não senhor…
  • O amigo perdeu a metade da sua vida.
  • O amigo sabe matemática?
  • Não senhor…
  • Então o amigo perdeu três quartos da sua vida.

Nesse instante a canoa já alcançara a metade da travessia, quando a correnteza provocou uma onda imensa, fazendo a canoa virar. O barqueiro então perguntou:

  • Moço, o senhor sabe nadar?
  • Não…
  • Então, o senhor perdeu a vida toda.

E em poucos minutos desapareceu nas águas barrentas do rio, sem que o canoeiro nada pudesse fazer.

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Quantas lições podemos tirar da história… Reflita você mesmo, leitor, e, se assim quiser, externe suas análises e conclusões aqui mesmo no NF. Os leitores vão gostar e aplaudir.

Pare, pense, reflita (não é travessia de estrada de ferro). Você já leu ou escutou uma história que o impressionou. Reescreva-a, fazendo acréscimos e adaptações de acordo com a sua sensibilidade crítica. Divida conosco suas emoções. O NF é o veículo adequado. Aproveite. Inspire-se na bela campanha da Rede Globo que, nos intervalos de competições esportivas, apresenta um atleta fazendo a leitura de um texto para mostrar que “Ler é também um exercício”.

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