Ecos do Rio – Dor e sofrimento compartilhados

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Ecos do Rio

Dor e sofrimento compartilhados

Ao longo desses dois últimos meses, tenho sido o centro de preocupação da família. Manifestações diárias de interesse sobre o meu real estado de saúde venho recebendo de todos que me querem bem. Não custa fazer um resumo dos acontecimentos.

Tudo começou no passeio do FAM. Alguns sobrinhos e irmãos observaram que um sinal existente entre o centro do tórax e o mamilo esquerdo havia crescido muito. Conversamos com o dr. Dênis no próprio catamarã. Envolvido no clima de preocupação, mas procurando passar tranqüilidade, o Dênis se prontificou a me conduzir à presença de colegas especialistas no assunto para uma orientação mais segura. Ele próprio foi me buscar em seu carro, levando-me inicialmente à drª. Zoraide, dermatologista, e dias depois ao dr. Cardoso. Ainda sem condições técnicas de oferecer um diagnóstico, ambos foram de parecer que o caso requeria cuidado, pois a coloração do sinal remetia a um prognóstico de poder ser um mal mais grave, o que exigia exame mais profundo e minucioso de laboratório e com urgência.

Começa, então, o período de apreensão. A Fátima entra em contato com o Dênis e o Marcus. Os três mantêm conversas sobre o assunto diariamente. De Londres, o Marcus agenda uma consulta à sua dermatologista no Rio para o dia seguinte à minha volta de Alagoas, fazendo ligações diárias para mim. Confesso que esse clima de apreensão me deixou preocupado. “Será que estão escondendo alguma coisa de mim?”, pensava.

A conversa com a dermatologista do Rio, na presença da Fátima, teve o mérito de diminuir a minha tensão. Pelo histórico do caso, ela quase que garantiu que o problema era benigno, pois o maligno se expande com maior rapidez e eu havia informado a ela que o processo de crescimento do sinal já tinha mais de dez anos, embora a coloração de um e outro caso fosse a mesma. Por isso, só um exame patológico (biópsia) tiraria a dúvida.

Da retirada para exame e o resultado firam dez dias. Apreensão, preocupação e dúvidas se intensificaram ao longo desse tempo. Orações, preces e um forte pensamento positivo se misturavam na expectativa de uma notícia favorável. Ligações diárias de Arapiraca, Maceió e Londres em busca de informações mexiam com os meus sentimentos.

O laboratório, por sutil sugestão da dermatologista, mandaria o resultado diretamente para o consultório dela. Só nos restava aguardar, com ansiedade.

Quem primeiro tomou conhecimento do resultado foi o Marcus, que ligava quase todos os dias para ela, a dermatologista, e esta, em seguida, ligou para mim dando a notícia. Foi um alívio. Emocionei-me, agradeci a Deus. Logo depois liguei para Arapiraca, Maceió e Londres para comentar o resultado exarado pelo laboratório: “epitelioma basocelular” e não “melanoma” (maligno). Após algumas explicações técnico-científicas, a dermatologista me disse tratar-se de um tumor benigno que deveria ser retirado, embora sem muita preocupação de ser imediatamente. Recomendou, entretanto, que, dado o local, a retirada deveria ser através de cirurgia plástica.

Um novo capítulo da história tem início, agora no HCE (Hospital Central do Exército). Marcada para semana seguinte, a cirurgia não pôde ser efetuada, devido à minha pressão que estava alta. Remarcada para dez dias depois, também não foi feita pelo mesmo motivo. Desta vez encaminharam-me ao cardiologista que autorizou a cirurgia após receitar dois medicamentos. Finalmente, no dia 10 de abril, foi possível realizá-la.

Por ter sido usada anestesia local, mesmo sem conseguir ver, pude acompanhar o trabalho delicado e minucioso dos três médicos que me operaram. À medida que venciam uma etapa, demonstravam satisfação pelo sucesso. Passavam, então, para mim seu estado de felicidade. O que me surpreendeu foi o tamanho do pedaço retirado do meu corpo, bem maior do que eu esperava: um retângulo de aproximadamente 3 cm  de comprimento, por 1 cm de largura, por 1 cm de altura, que foi encaminhado para novo exame, com o objetivo de se verificar se toda área afetada havia sido, de fato, retirada. Esse resultado demora de 25 a 30 dias para sair.

Mas sofrimento físico mesmo só experimentei depois da cirurgia. Os efeitos colaterais de um antibiótico e de um antiinflamatório se somaram e se potencializaram logo após haver ingerido apenas dois comprimidos de cada um, afetando todos os órgãos que compõem o abdômen, principalmente o estômago. Dor, febre, ânsia de vômito, sem praticamente comer nada. Voltando ao HCE, para verificação dos médicos, relatei sobre os problemas causados pela medicação. Suspenderam-na, mantendo somente uma para proteger o estômago. Era uma sexta-feira e a dor não passava. No sábado (aliás com o Fernando aqui em casa de passagem pelo Rio), voltei ao HCE, no serviço de emergência. A médica que me atendeu receitou um medicamento que, além de proteger o estômago, também combatia a dor. Foi a solução. A pouco e pouco a dor foi desaparecendo e sumiu por completo, mas não era “doril”.

No dia 22, foram retirados os 25 pontos da cirurgia que deixaram a marca de uma figura geométrica em forma de “Z” ou “S”. Segundo os médicos, essa marca desaparecerá com o tempo. Embora a região ainda esteja um pouco dolorida, estou passando bem.

Algumas lições podem ser retiradas desses dias de angústia, apreensão, preocupação, dor e sofrimento. A principal delas é que, nesses momentos, a verdadeira família se envolve de tal maneira que passa a sentir os mesmos problemas como se cada um fosse a própria vítima, compartilhando tudo. Uma outra lição é reconhecer que o nosso organismo é uma máquina que envelhece com o tempo e por isso necessita de atenção especial sempre que alguma engrenagem não funcione com perfeição, pois o atraso no reparo ou conserto pode ser fatal, sem volta. Não é à toa que continuo a tratar de outros problemas de minha saúde, principalmente em respeito a tanto carinho e a tanto cuidado de tanta gente bondosa e generosa que me cobre de tanta afeição.

Do fundo do peito, obrigado por tudo.

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