Ecos do Rio – Guerra também é cultura

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Nunca me passou pela cabeça que uma guerra, com todos os seus horrores e sofrimentos, pudesse despertar interesse ligado ao conhecimento geral. Mesmo assim, ela continua sendo, em sua essência, a negação dos direitos mínimos do indivíduo, principalmente quando se constata que inocentes são suas maiores vítimas. Com o avanço da tecnologia bélica e eletrônica, foi-nos possível acompanhar, de dentro da nossa casa, o desenrolar de algumas batalhas do último conflito EUA x  Iraque, em tempo real, como se fosse um passatempo de videogame, mantendo-nos ligados à televisão o dia todo.

Sem querer entrar no mérito das motivações que levaram Bush e Saddam a essa sandice, comecei a me interessar mais de perto por outros fatores, a partir de uma reportagem da jornalista Ana Lúcia Azevedo, do Globo, com o título “Guerra devasta a terra de profetas da Bíblia” e os subtítulos “No meio do deserto, conchas de 5.000 anos relembram a história de Noé” e “Templo de Ur, cercado por tropas americanas, fica junto ao lugar onde nasceu Abraão”.

Voltando um pouco no tempo, relembrei algumas aulas de história geral, ainda no ginásio, quando estudei sobre os rios Tigre e Eufrates e a Mesopotâmia, sem associar que tudo isso fica nos desertos do Iraque e muito menos que naquela região, em meio das culturas mesopotâmicas, residem vestígios e paisagens que historiadores, arqueólogos e teólogos reconhecem como sendo inspiradores de inúmeras passagens da Bíblia, principalmente do Velho Testamento. Foi ali que Adão e Eva, Noé, e Abraão, entre muitos outros personagens tão conhecidos de todos nós, nasceram e viveram. Diante dos meus olhos, uma história de ficção tornou-se realidade concreta.

O trabalho de pesquisa da jornalista citada acima tem o poder de nos levar a uma viagem de visita a locais que só existiam na nossa imaginação. O roteiro turístico privilegia a Mesopotâmia, região que fica entre o Tigre e o Eufrates, rios que cortam, quase em paralelo, o Iraque de norte a sul. Embarquemos nesse passeio fascinante, embora um pouco assustador e devastador.

Entrando no Iraque pelo extremo sul, encontramos a cidade de Al-Qarna em pleno pantanal da Mesopotâmia, onde ficava o Jardim do Éden. Foi aí que Adão se deparou com Eva e por ela se apaixonou. Também pudera, o ambiente bucólico, no meio de uma vegetação rica em frutos frescos e apetitosos, sem agrotóxicos, levou Adão a aceitar a oferta da maçã, a qual comeu com casca e tudo. Dá para imaginar o deslumbramento do primeiro homem ao conhecer a beleza plástica da primeira mulher, que se apresentara diante dele como viera ao mundo. Como ainda não havia tecido, o aquecimento do corpo, quando necessário, era feito com folhas das árvores, embora a Bíblia fale apenas na parreira.

A maior parte daquela viçosa e bela vegetação já não existe mais. Entretanto, a tradição persiste, e Al-Qarna tem ainda hoje uma velha árvore que a população local chama-a de Árvore de Adão.

Bem próxima de Al-Qarna fica a cidade de Ur, onde pequenas conchas, em meio às areias do deserto, são vistas pelos arqueólogos como possíveis vestígios do relato bíblico do Dilúvio, mito que os historiadores dessacralizam dizendo que, na realidade, o que houve foi uma grande enchente dos rios Tigre e Eufrates há, aproximadamente, 5.ooo anos. Entra aí a história de Noé e de sua Arca.

Já as cidades de Nínive e Babilônia, citadas na Bíblia, ficam na região norte do Iraque. Quem leu o Livro Sagrado sabe que a Babilônia foi o lugar do cativeiro dos judeus, mas para a Histíria, Babilônia é lembrada por seus fabulosos Jardins Suspensos. Na Bíblia, Babilônia foi o local onde foi construída a Torre de Babel. Hoje, talvez, fonte de pesquisa para estudiosos da linguagem.

Abraão, apesar de ter nascido em Ur, migrou para Najaf com seu filho Isaac, em busca da terra prometida e a denominou de Vale da Paz.

Inúmeras outras figuras bíblicas viveram e tiveram papel fundamental na região iraquiana. Os reis Nabucodonosor, da Babilônia, e Assurbanipal, da Assíria, e os profetas Jonas e Naum refletem a animosidade que sempre existiu entre o homem do campo e das cidades.

Cada lugar visitado nessa excursão merece algumas reflexões sobre história e religião. Deixo por sua conta a responsabilidade de emitir juízos de valor ou então discutimos em outra oportunidade.

De qualquer maneira, a viagem que fiz com a leitura da reportagem da jornalista do Globo e que tentei dividi-la com você, meu caro leitor, só veio confirmar a opinião da maioria da população mundial de que, de fato, a guerra do Iraque foi uma estupidez inexplicável, não só pelo sofrimento do povo, mas também pela destruição da grande parte do acervo cultural da humanidade ocidental.

Os americanos violaram o solo sagrado das três religiões monoteístas: Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. O castigo para os invasores, não tenhamos dúvidas, poderá tardar, mas chegará, mesmo que a médio ou longo prazo.

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