Ecos do Rio – Viajando de metrô

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José Magalhães

Ecos do Rio

Viajando de metrô

Não sei se você, caro leitor, já se deu conta de que, quando viajamos em transporte coletivo, geralmente ficamos isolados, solitários, embora com muita gente à frente e ao lado. É um paradoxo, com tanta gente e ao mesmo tempo sem ninguém com quem conversarmos. Só vemos pessoas estranhas, caladas, parecendo mudas, cada uma delas encastelada em seu universo desconhecido e misterioso. Por não haver um dedinho de prosa, o espaço a percorrer e o tempo gasto no percurso se tornam muito longos. Para minimizar o problema, o remédio é ler qualquer coisa. Você por certo já constatou que há uma exceção: quando viajamos em excursão, só para ilustrar, lembra do último passeio do FAM? Quem conseguia passar um minuto sem falar, principalmente na ida?

Pretexto relativamente tolo para começar uma crônica, é verdade. Mas não tinha em mente um outro assunto que me servisse de inspiração para conversar com você. Por isso estou aproveitando uma viajem de metrô ao centro da cidade para provar que é possível viajar acompanhado, mesmo que de forma virtual, de pessoas amigas e com as quais manter algum diálogo.

Vou fazer uma confissão: quando tenho de me deslocar para qualquer ponto da cidade servido por uma linha do metrô, dou sempre preferência a esse tipo de transporte. É rápido, limpo, confortável e, acima de tudo, prático. Quem quiser maiores informações é só perguntar ao Betinho ou a outra pessoa que já teve o privilégio de comprovaras vantagens de um passageiro de metrô.

No ponto inicial da viagem, na estação Saens Peña, recebi um jornalzinho editado pela empresa que administra o metrô. Fiz logo uma ligação com o nosso NF, mas o jornalzinho era pobre de artigos, embora rico de propaganda. De qualquer maneira tornou-se útil durante o trajeto. Antes de embarcar, enquanto começava a folhear o citado jornal, o serviço de som da estação brindava os passageiros com uma música clássica popular italiana muito conhecida, de cujo título não me lembrei, mas que tenho certeza de que agradaria também, e muito, ao redator-chefe do NF.

Iniciada a viagem, num misto de informação e publicidade, uma matéria do jornalzinho me chamou atenção: Desfile beneficente. Não foi o título que me levou àquela leitura, mas algumas fotos bastante ilustrativas, dentre as quais se destacavam as de Fátima Bernardes, Cristiane Pelajo e Vera Fischer. Tratava-se na verdade de uma iniciativa do Juizado de Menores para arrecadar fundos para a Vara da Infância e da Juventude, que organizou um desfile com roupas pouco usadas de jornalistas e atrizes globais. Então pensei: que tal arrematar um grande número de peças para presentear às damas do FAM? Desisti por lembrar que toda mulher não abre mão da originalidade de suas roupas e modelos. De qualquer maneira fiquei curioso para saber em quem caberia melhor a roupa usada pela Vera Fischer, Glória Menezes, Suzana Vieira e outras famosas da telinha. M as valeu a intenção, parece-me.

A viagem continua. O serviço de sonorização dos carros do metrô anuncia: Próxima etação: Estácio, estação de transferência para a linha 2”. Suspendendo por pouco tempo a leitura do jornal, lembrei que em minha última visita a Mesquita estava acompanhado da Ivany e também tínhamos utilizado o metrô. Fomos até o final da linha 2 e lá pegamos o ônibus que faz a integração Pavuna-Mesquita. Não se ganha muito tempo não, mas o conforto e bem-estar compensam.

Voltando à leitura, deparo-me com a seguinte matéria: Do futuro das cidades. É uma abordagem sobre o livro “The rebellers”, da escritora norte-americana Jane Roberts, que imagina uma calma e típica cidade dos EE.UU. no século XX em oposição a uma outra no século XXIII, denominada “Contrópolis”, selvagemente superpovoada, onde milhões de pessoas famintas, semiloucas, cambaleavam pelas ruas numa busca inútil por alimentos, “um verdadeiro carnaval macabro”. O autor da matéria associa Rio e São Paulo, onde hoje se  convive com uma verdadeira guerrilha urbana, com a própria “Contrópolis”. Muito a ver. Mas, eis que de repente, me bate um saudosismo, carregado de melancolia, da Arapiraca da minha época de calças curtas, sem água encanada, sem luz elétrica (à noite só havia claridade na Lua Cheia), sem conforto, mas quanta paz, quanta tranqüilidade, quanto carinho e amor materno. Nem uma carência me deixou marcas que não pudessem ser apagadas. Como eu era feliz e não sabia… Dessa época, guardo uma cena que nunca relatei a ninguém. Voltávamos de uma visita à casa de um amigo da família que morava no Cavaco papai, mamãe, um irmão ou dois e eu por uma rua deserta, quando, olhando para trás, presenciei um momento de romantismo explícito: papai dando um beijo no rosto da mamãe. Tenho a impressão de que todos nós, atores e espectadores, ficamos um pouco sem graça diante do flagrante. Sinceramente não me lembro de ter visto cena igual entre os dois durante o tempo que viveram.

A memória tem o poder de reter informações muito antigas que julgávamos completamente esquecidas, mas que, por um impulso externo, podem retornar. E isso ocorreu enquanto viajava sozinho ao lado de centenas de outros passageiros.

Cinco minutos depois, chegava ao ponto final da viagem, a estação Carioca. Ao desembarcar, tive o privilégio de ouvir, ainda no interior da estação, as “Quatro Estações”, de Vivaldi. Mais uma vez me liguei no Abel e pensei comigo mesmo: se ele estivesse aqui, por certo esperaria o término da música para sair da estação.

Já fora da estação, tive a atenção voltada para um som de saxofone, que vinha do lado oposto da saída. Um deficiente visual, sem acompanhamento, tocava músicas populares explorando a piedade dos transeuntes. Detive-me ali por alguns segundos e pensei no nosso Diretor Social que, se estivesse me acompanhando, com certeza gostaria de permanecer mais tempo no local para avaliar melhor a execução daquele instrumentista amador.

A volta não proporcionou maiores emoções e o jornalzinho só tinha publicidade, não mais despertanto interesse em sua leitura. Dei a ele o destino de todo jornal velho, o lixo.

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