Ecos do Rio – O poder de um presente inteligente

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O poder de um presente inteligente

Bastante afinado com a minha sensibilidade em relação à literatura e à música, o Abel resolveu me fazer mais uma agradável surpresa. Em duas semanas, quatro presentes: dois livros de poesia, uma fita de vídeo e um CD. Todos eles me cativaram e me emocionaram. Pela importância deles no meu dia-a-dia, cada um mereceria uma referência especial e isolada, mas vou fazer isso de uma só vez para não me tornar repetitivo.

Dinâmico batalhador da comunicação sociocultural do FAM, o nosso incansável redator-chefe, depois de ouvir a exposição dos palestrantes das duas últimas reuniões da diretoria da nossa agremiação, não esqueceu de mim. É possível que tenha pensado: “que pena, o José não estar presente, com certeza ele iria gostar de participar”. Então adquiriu os livros, objeto maior daquelas comunicações, solicitou o autógrafo de cada autor e decidiu me presentear. Divido com vocês, caros leitores, esse testemunho de apreço e afeto registrado nas dedicatórias. Aliás, nas próprias dedicatórias já se antevê uma síntese do universo de cada um dos poetas.

Em “O Caipira e o Onze e Meia”:

“Ao amigo José Magalhães

O caipira te agradece

O apoio que me dás.

Com certeza te enobrece

Seu (sic) chiado carioca.

É assim que a gente cresce”.

Ronaldo Oliveira revela-se um aficcionado das rimas em redondilha maior (verso de sete sílabas métricas), tipo de poesia que melhor se presta à memorização. A dedicatória já revela o repentista de primeira hora. No capítulo I, o autor nos mostra a admiração que nutre por Jô Soares e sua obstinada trajetória para se tornar também um dos entrevistados do programa. Ressalte-se o caráter educativo do capítulo II, “Caipira prevenido Vale Por Dez”. Sua veia artística me parece mais evidente no capítulo III, “Divagação do Caipira”. No poema que fecha o capítulo, “Ayrton – o menino do Brasil”, o poeta empresta sua voz ao povo em autêntica lírica coral, quando canta:”…ia o jovem Ayrton / sonhando ser campeão / a cada nova vitória / passava um pouco da glória / por essa sofrida nação / “ e arremata, nos dois últimos versos, com o mesmo sentimento de todo nosso povo: “…Ayrton, você não morreu / apenas saiu de ‘senna’/ O capítulo IV, “Dicionário Caipira” é fonte de referência para sociolingüistas e semanticistas, especialistas em estudos de variações da linguagem humana e dos significados das palavras.

Em “Prelúdios Poéticos”, de Carlindo de Lira, duas dedicatórias. A do autor, com seu autógrafo: “José Magalhães, ler, ler e ler desperta um mundo de realidades possíveis. Um abraço fraterno do autor”. E mais abaixo: “Uma iniciativa carinhosa do seu irmão que tanto o estima. Abel, Maceió, 14/07/2003”. (Mexeram com o presenteado).

São 48 poemas de profundo lirismo e alta sensibilidade poética. No início do livro uma página privilegia alguns leitores especiais, a quem o autor dedica sua obra. Após nomear parentes e amigos, conclui sua mensagem: “a todos quantos descobriram que podem “ver” um pouco mais além do que tudo aquilo que se apresenta aos olhos”. Nessas palavras está a síntese do perfil do leitor que sabe saborear um texto literário. Em cada um de seus poemas, o autor nos convida à reflexão e a uma viagem que vai além dos nossos olhos. Cada um deles poderia ser tema de uma crônica. O último poema, que dá nome à obra, Prelúdios poéticos, é uma aula do fazer literário. Leiam comigo os últimos cinco versos: “…Componho, sim / palavras de vida, / vestidas de espírito, / compostas de alma, / conscientes de si”.

O terceiro presente foi uma bela montagem em vídeo do nosso último passeio do FAM, em janeiro de 2003. Revivi, emocionado, aqueles dois dias fantásticos de descontração da família reunida, ponto alto do calendário social da nossa entidade, em que a confraternização concretiza a finalidade estatutária da criação do FAM. Rever imagens vivenciadas é como voltar no tempo e sentir as mesmas emoções.

De propósito, deixei para o fim a análise e o comentário sobre o quarto  presente: O CD “Encanto de Alagoas”, com que o Abel e a Ivonete me tocaram profundamente. Embora todas as músicas, com o seu poder mágico, me transportem a Alagoas, uma delas mexe comigo de maneira especial. Não consigo me lembrar o título exato, mas é aquela que começa assim: “Ai, que saudade, que dó, viver longe de Maceió”.

Perdoem-me a confissão, mas tenho razões especiais para sentir nessa música passagem da minha vida que guardo para sempre. Tudo começou na minha adolescência quando fui para Maceió. Jamais poderia esquecer que foi na Pajuçara que conheci o mar pela primeira vez e em suas águas cumpri o ritual de um batismo diferente. O contraste entre o verde de suas águas e o dourado dos raios solares me contagiaram. O batismo foi testemunhado por um coqueiral. Um desses coqueiros, o único com nome próprio de que já ouvi falar, o Gogó da Ema foi meu padrinho naquela cerimônia. Lamentavelmente, dado o envelhecimento sem cuidados médicos, não resistiu ao tempo, desapareceu, mas a sua silhueta continua bem nítida nas minhas retinas. Entretanto, a Pajuçara de que estou falando não é a atual com avenidas e arranha-céus, mas uma Pajuçara ainda bucólica, sem asfalto, com poucas casas e alguns poucos sobrados de dois ou três andares. Quando volto a Maceió, uma passagem pela Pajuçara é imprescindível, e até mesmo quando desfruto das belezas da Ponta Verde meu coração passeia pela Pajuçara.

Forte também é a lembrança dos banhos no Catolé que a música também registra. Sempre que viajava de Maceió a Arapiraca, ou vice-versa, pela estrada antiga, me dava uma vontade louca de saltar do ônibus e novamente tomar um banho no Catolé.

Que saudade da Bica da Pedra do meu tempo, um pequeno balneário freqüentado pelas famílias mais abastadas de Maceió na época. Hoje já não tem o charme de antigamente, mas o dia que passei lá jamais será esquecido. E foi justamente numa fase de transição de faixa etária, no momento em que você começa a sentir transformações no seu corpo e a observar no corpo do sexo oposto formas que despertam a libido. Na Bica da Pedra comecei a pensar se eu levava jeito para continuar estudando no Seminário. Mesmo limitado a apenas observar e a ser observado, uma força estranha me levou a ter sonhos diferentes, embora ainda em preto e branco, como no romantismo.

Desde que recebi esse presente, ouço, pelo menos uma vez por dia, as músicas do CD, mas com um sentimento especial para a primeira faixa “ai, ai, que saudade, que dó…”

Por isso, Abel, meus sinceros agradecimentos pelo bem que você me fez.

José

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