Ecos do Rio – O sucesso e a responsabilidade

0
491

Ecos do Rio

O sucesso e a responsabilidade

Muito envolvente o clima de euforia na FAMília pela aprovação no último vestibular de três membros da atual geração. Mais do que justo e compreensível. É preciso, no entanto, nessa hora pensar um pouco no decisivo papel dos pais que, sem medir sacrifícios, fazem o que podem (e, às vezes, o que não podem) para ver seus filhos vitoriosos. Pena que estes, ainda em dormência reflexiva, não tenham consciência do valor real daquela dedicação e muitos até entendem que os pais não fazem mais do que sua obrigação. Só muito tempo depois é que sentem “a ficha cair”, o que levou o cronista Affonso Romano de Sant’Anna a afirmar que “só aprendemos a ser filhos quando nos tornamos pais”.

A história nos mostra que desde os primórdios da civilização, o sonho de uma geração é ultrapassar a anterior, no mínimo alcançá-la. Algumas vezes, essa conscientização demora um pouco mais do que seria normal e, em conseqüência, frustrações são observadas ao longo da vida.

Quando os filhos não conseguem vencer as “pedras no meio do caminho”, os pais sofrem, mas quando ocorre o contrário, eles (os pais) exultam de felicidade e se projetam na vitória deles (os filhos) como se fosse também um sucesso próprio.

Para ilustrar o que acabei de dizer, assim que o Abel soube da aprovação da Magal, não se limitou a uma simples ligação telefônica, deslocou-se até arapiraca para comemorar com a família o feito da filha querida, de corpo presente.

Com a aprovação da Adriana, o Adilson e a Marta, transbordando de felicidade, chamaram amigos e parentes para marcar o momento de júbilo. Dada a impossibilidade de me ver pessoalmente na comemoração, ele (Adilson) ligou para mim fazendo questão de dividir comigo sua emoção pelo sucesso da filha. Seu depoimento ao editor-chefe do NF sobre o evento foi marcante e pode ser resumido em pouquíssimas, mas eloqüentes palavras: “Isso é gostoso… Eu chorei… Eu ri… Eu… a Marta…” O desabafo de euforia do Adilson, me fez voltar no tempo e me levou a relembrar um momento marcante vivido pela minha família. Novamente me emocionei com as imagens recuperadas pelo subconsciente do momento em que, assistindo “in loco” a apuração e divulgação do vestibular do Marcus, eu, a Fátima, a Rita e a Carla, sem poder conter as lágrimas, nos abraçávamos com ele, exultando de satisfação e de orgulho. (A lembrança da cena daquele instante foi tão forte que uma lágrima acaba de cair nos meus óculos à medida que estou escrevendo).

A demonstração de alegria do Fernando com a aprovação da Flávia foi registrada à distância, de Salvador. Não podendo transmiti-la pessoalmente, fez uso do correio eletrônico, via computador. Um retrospecto da vida dela, desde a hora do nascimento, com detalhes que só ele e a Ana sabiam, estabelecia um paralelo entre a alegria de vê-la nascer sadia e bonita e o sucesso pela aprovação no vestibular. E fez questão de registrar: “Estou muito feliz com você e por você, muito orgulhoso de ser seu pai, de ter contribuído de forma importante nesse processo e também de ter o prazer de compartilhar essa verdadeira alegria. Afinal você conseguiu o que poucos conseguem: uma vaga numa universidade federal”.

Pergunto a você, caro leitor. Numa hora como essa, quem fica mais feliz e realizado, o filho ou o pai?

Mas eu não poderia deixar de dirigir algumas palavras às três vencedoras. Inicialmente, os meus sinceros e afetuosos parabéns pelo sucesso alcançado. Vocês puderam constatar quanto é gostoso e gratificante receber a notícia de aprovação num concurso público e quanto isso representa para os pais. Entretanto, é preciso estar consciente de que numa guerra há muitas batalhas. Vocês conseguiram vencer uma delas, talvez a mais espinhosa. Novos e pesados desafios estão por vir e vocês terão de enfrenta-los sem desânimo: livros caros, bibliotecas deficientes, professores exigentes (alguns até chatos e ultrapassados). É preciso, porém, não esquecer que tudo isso faz parte do processo no crescimento acadêmico. Agora, mais do que nunca, a pesquisa torna-se imprescindível na vida de vocês, e toda informação, conceito ou definição novos deverão ser recebidos com questionamentos e espírito crítico. Assim, uma outra visão do mundo vai sendo captada.

Pensar um projeto de vida é persegui-lo com denodo, tenacidade, entusiasmo e nada justifica a acomodação, vendo a banda passar. Aliás, o papel histórico da juventude sempre foi elaborar e materializar uma alternativa viável na busca de sua independência, da concretização de um sonho. Muitas vezes o caminho traçado ou imaginado apresenta desconforto, dificuldades e até mesmo sofrimentos, mas é necessário continuar assim mesmo a caminhada para atingir-se o objetivo. A plena ativação das energias e a organização do seu potencial tornam-se fundamentais para a obtenção do sucesso pessoal. Desanimar, jamais.

Permitam-me também dizer a vocês sobre a importância de refletir um pouco a respeito da história e da vida de seus pais. Como enfrentaram, e ainda enfrentam, desafios para criar a família, numa constante doação em busca do melhor para vocês e dos outros filhos, com dignidade, amor e altruísmo. Crescemos muito quando analisamos a história dos nossos pais.

A minha geração, que antecede a de vocês, tem alguns exemplos que podem servir-lhes de farol na luta pela conquista de um espaço na sociedade. Por isso, quando estiverem com o tio Abel, o tio Cláudio e a tia Lourdinha, perguntem como eles agiram para vencer seus maiores desafios. Como o Abel e o Cláudio conseguiram sucesso no concurso do Banco do Brasil e Banco do Nordeste, respectivamente, sem livros adequados, sem cursinhos preparatórios, sem telefone, sem computador, sem internet, disputando uma vaga com milhares de outros candidatos. Como a Lourdinha conseguiu conciliar seus deveres de esposa, mãe, dona de casa e funcionária e lograr aprovação num vestibular de grande competitividade e fazer o seu curso de Odontologia com um ótimo aproveitamento, tudo isso “sem deixar a peteca cair”. Perguntem a ela sobre tempo de lazer e até tempo para dormir. Vocês hão de concordar comigo: muita audácia, confiança e força de vontade dos três. Embora haja outros exemplos na minha geração, limito-me a ficar com estes por me parecerem os mais ilustrativos.

Na geração de vocês já existem também alguns exemplos que podem servir de modelo. Procurem identifica-los, é sempre bom. Por outro lado, há muitos outros que, por acomodação, deixam de desenvolver seu grande potencial e que ainda não alcançaram nem o sucesso dos pais, quanto mais ultrapassa-los. Talvez precisem de uma injeção de ânimo de coragem. De uma forma direta ou indireta, vocês podem ajudá-los, despertando-os para a realidade. Mostrem para eles que a posição na pirâmide social depende do esforço de cada um. Se não lutarem, vão ficar na base, sem direito a desculpas.

Por fim, alimentem a certeza de que jamais faltará espaço para quem está bem preparado e, para tanto, as oportunidades não podem ser desperdiçadas, principalmente na atual conjuntura onde a competitividade é acirrada e, em alguns casos, até cruel. Mas vale a pena lutar sem esquecer jamais que um diploma universitário não é garantia de sucesso, ele simplesmente abre portas, mostrando novos cenários. Para ocupá-los e domina-los só com bastante competência.

Um abraço especial desse tio fascinado por cultura e tenacidade.

Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

*