Ecos do Rio – Objetos do desejo e inabilidade digital

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ECOS DO RIO

 

Objetos do desejo e inabilidade digital

 

 

Nos últimos dias recebi três “puxões de orelha” pelo telefone fixo (ainda não tenho celular) em minha casa.  É bem verdade que foram “puxões” temperados de muito afeto e respeito, mas doeram e deixaram minhas orelhas ardendo. O primeiro foi de um amigo, antigo colega de vida militar de muitos anos, que, após aposentar-se, escolher Vitória – ES como domicilio, e que fazia mais de dez anos não o via.  O segundo foi do secretario do FAM que, provocado, deu suas explicações por que tinha sido eu o único associado a não tomar conhecimento do adiamento da reunião mensal.  O terceiro foi do recém-eleito diretor da minha faculdade que estava me convidando para uma reunião com outros professores.  A causa da sutil reprimenda?   A mesma dos três: “como pode você ainda não ter computador nem e-mail?”.

 

Aliás, muitos me indagam sobre o descaso ou até aversão à parafernália tecnológica de informação e comunicação quase instantânea que aparento ter. Eu mesmo chego a me questionar se isso é verdade, se isso procede.

 

Quanto a telefone celular nunca me despertou maior interesse, embora reconheça ser importante para muitas pessoas, principalmente para aquelas cuja profissão exija rápido fechamento de negócios ou tomadas de posição administrativa em certo espaço de tempo.  Até mesmo para marcação de encontros, românticos ou profissionais.  Seu uso já não é mais demonstração de status como há pouco tempo. Lembro de uma adolescente, minha vizinha, que, para ostentar uma situação não compatível com seu estado de carência econômico-financeiro, comprou um de brinquedo (made in Paraguai) e o colocou na cintura em um belo estojo e, na maior cara-de-pau, desfilava pelas ruas da cidade e pelo condomínio como se fosse verdadeiro.  Não esqueço também o brilho dos olhos do Juracy quando apareceu lá na casa da mamãe portando o seu (de verdade) que ganhara de presente, de grande utilidade para sua vida profissional.  Causou-me espanto ver um barraqueiro de frutas e legumes, há uns dois anos na feira de Arapiraca, ostentando o seu telefone celular no meio dos produtos oferecidos e à vista de todos os compradores e transeuntes. Aqui mesmo no Rio, em plena praça Saens Peña, na Tijuca, dirigi-me a um pipoqueiro para comprar um saco de pipoca.  Para minha surpresa, no meio da operação de ensacamento do produto, toca o celular dele.  Demonstrando a maior felicidade do mundo, suspendeu a operação e priorizou uma conversação animada e afetiva com o seu interlocutor.  Senti-me desprestigiado e sai de mansinho sem poder saborear a pipoca, mas ele continuou falando feliz da vida.

 

Inúmeras outras histórias sobre a importância do celular no dia-a-dia das pessoas são conhecidas de todos nós. O simples toque da campainha, mesmo música, me provoca desconforto.  No entanto a vulgarização do seu uso vem modificando o comportamento e a postura de muita gente em seus deslocamentos na via pública e nos corredores.  Parecem, uns alienados, com a mão no ouvido, parecendo falar sozinhos e lembrando ETs.  Caso eu venha a adquirir um, vai ficar só no vibra-call.  Ainda bem que dentro de pouco tempo, falar em celular vai ser um detalhe apenas.  Eles serão em breve computadores de bolso para transmitir e receber mensagens gráficas ou sofisticadas máquinas fotográficas.

 

Já no que se refere ao computador, sou forçado a reconhecer que preciso o quanto antes aprender a conversar com essa maquina fantástica e maravilhosa.  Torna-se até difícil explicar o meu relaxamento, dada a minha situação profissional com o seu domínio.  Mas nunca é difícil explicar o meu relaxamento, dado a minha situação profissional com o seu domínio. Mas nunca é tarde para querer alfabetizar-me numa nova linguagem e me conectar ao mundo, corrigindo essa imperdoável deficiência.

 

Estou plenamente consciente de que a humanidade está engolfada num oceano de dados em busca da informação embora ao lado de muito lixo descartável. Depois da febre do telefone celular, do computador e da internet, outras máquinas de controle digital estão invadindo o mercado consumidor, tornando-se objetos do desejo da classe média. O problema maior está justamente em saber onde colocar o dedo no lugar certo para que o dado corresponda à informação procurada. Talvez esteja aí o desafio ou a barreira que arrefece o ânimo de quem quer abrir janelas para uma nova realidade através de um mundo virtual e provocador. Fico bastante feliz e orgulhoso quando vejo minhas netas usarem qualquer tipo de controle remoto sem maiores preocupações e já usarem a internet para pesquisas e diversões, numa evidência de que o universo da informática não lhes trará qualquer bloqueio no futuro.

 

Um abraço,

Do José Magalhães

 

 

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