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A caixa de Pandora

Meu caro redator-chefe, mesmo sabendo que a guerra do Iraque está nas telas das televisões o dia todo, gostaria de sugerir a transcrição da matéria anexa, publicada no Caderno Especial do Globo, p.6, denominado “a guerra do bush”. A motivação para este pedido está resumida no primeiro parágrafo do artigo. Antecipadamente grato. José Magalhães.

 

Segundo a mitologia grega, Hefestos seguiu uma ordem de Zeus e criou sua primeira mulher, Pandora, envolvendo-a com tudo o que havia de melhor. Zeus, no entanto, transformou-a na guardiã de uma pequena caixa que continha todas as marcas da maldade. E deu ordens expressas para que ela nunca a abrisse, porque isso implicaria em inúmeras calamidades. Incapaz de conter sua curiosidade, Pandora abriu a caixa, libertando todas as pragas que fazem a Humanidade sofrer até hoje. Parece que apenas a esperança continua dentro da caixinha.

A Humanidade não precisa carregar o peso deste fatalismo. Apesar disso, é preciso lembrar as grandes lições da existência humana e tentar entender por que as características que nos tornam humanos têm nos conduzido a tanto sofrimento.

O destino do mundo está hoje nas mãos de líderes que tanto podem gerar a paz quanto arrastar todos nós para a guerra. O americano George W. Bush, o inglês Tony Blair, o espanhol José Maria Aznar e o italiano Silvio Berlusconi – os “quatro mosqueteiros dos mísseis” – foram cegados pela arrogância do poder. Como Pandora, Bush e seus aliados abriram a caixa das calamidades. Diferentemente de Pandora, no entanto, Bush não foi guiado pela curiosidade, mas por sua ambição por poder e hegemonia globais.

Bush acredita que pode derrotar qualquer um Ele ignora o fato de que o mundo tem se mobilizado em manifestações de massa que dizem não à guerra e sim para a paz. Em resposta a este clamor, o presidente dos Estados Unidos observou “como a democracia é bonita, permite que o povo expresse sua opinião”. Agindo como se este tipo de expressão estivesse apenas sendo tolerada, ele deixou claro que “estes protestos pela paz” jamais alterariam seus “planos para o Iraque”. E é evidente que suas convicções democráticas foram reduzidas a pó.

Analisando as ligações da administração Bush com companhias de petróleo (não só do presidente e de seu pai, mas especialmente de sua secretária de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, com Exxon e Texaco), o escritor Gore Vidal deixou tudo muito claro: os verdadeiros motivos da guerra contra o Iraque são petróleo e imperialismo. Aparentemente, custo de vidas humanas não preocupa tanto Bush quanto a vontade de atingir seus objetivos políticos e econômicos.

Há também uma conexão entre o Iraque e a Venezuela. As tentativas de derrubar o governo Hugo Chávez e assumir o controle das reservas de petróleo da região apontam para o fortalecimento da hegemonia global dos estados Unidos. O Departamento de Estado americano esteve implicado em todos os golpes contra Chávez. Controlar as reservas de energia da Venezuela, junto com as do Iraque, seria, de fato,botar Europa, China e outros países à mercê de um império, os Estados Unidos.

Esta situação está sendo ignorada, assim como o enorme risco que representa a militarização da América Latina por forças americanas – incluindo aí o Plano Colômbia e, na América Central, o Plano Puebla Panamá.

Bush está abrindo a caixa de Pandora e ameaça libertar toda a perversidade das bestas apocalípticas, exigindo destruição e morte.

Adolso Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz em 1980.

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