2018 – 14º livro – Lampião e Maria Bonita: uma história de amor entre balas

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Lampião e Maria Bonita: uma história de amor entre balas
Wagner Barreira
“Lampião é um sujeito raríssimo cuja história não se encerra. Circunscrito a seu ambiente, o semiárido nordestino, Virgulino Ferreira da Silva, bandido, assassino, terrível, encontrou Maria da Déa, casada, inquieta, aventureira. A união da dupla e a vida entre seus seguidores apresentaram ao país, preocupado em ser moderno, uma forma diferente, assustadora e sedutora de viver. Gênio militar inato, galanteador, sábio, pernóstico, malvado, justo… Quantas pessoas foram capazes de reunir tantos defeitos e qualidades? Quantas mulheres abandonaram tudo para seguir o grande amor? Testemunhada, contada, recontada, reescrita, a vida e o amor de Lampião e Maria Bonita, um legítimo romance de aventura, só podem ser projetados como ficção coletiva, erguido sobre as fundações deixadas por tantos outros narradores que se aventuraram a contar seu romance. A saga dos dois é uma história verdadeira que, até hoje, alimenta a mística do cangaço e continua mexendo com o imaginário popular” – opinião da editora.
Chamo a atenção para o detalhe do livro anterior, de Adriana Negreiros, sobre a vida de Maria Bonita, um livro na mesma linha de ação e escrito pela esposa do consagrado escritor Lira Neto. Como a temática é a mesma, foi bem mais fácil e estimulante a leitura deste, que é uma espécie de continuação do anterior.
“Do almanaque, o casal José Ferreira e Maria Lopes tirou o nome do terceiro filho: Virgulino, uma referência à Constelação de Virgem, Virgo em latim (a grafia arcaica do nome do futuro Lampião é Virgolino). A criança veio ao mundo, de acordo com o registro civil, em 7 de junho de 1897.” Aí está o registro do famoso cangaceiro e a sua justificativa por parte dos seus pais.
O dia exato do nascimento de Virgulino é a primeira interrogação sobre sua vida – muitas outras o acompanharão, a cada ação, diálogo ou evento futuros. Existem pelo menos treze eventuais registros.
Passagens de sua vida.
Conta que Lampião e seus sequazes chegaram à noite a uma fazenda. Pediram algo para comer à dona da casa, que se dispôs a cozinhar e serviu o que tinha na cozinha. A certa altura do jantar, um dos bandoleiros reclamou: a comida estava insossa. O Rei do Cangaço, discretamente, enviou um rapaz à venda mais próxima, recebeu a encomenda e, em silêncio, levantou-se, abriu os dois pacotes de sal e despejou o conteúdo no prato do insatisfeito. “Coma”, ordenou. Variações mudam o ingrediente, para farinha ou pimenta. Pelo tempo necessário para encontrar a venda mais próxima de uma fazenda no sertão nordestino e a deglutição de um prato feito diante dos olhos de alguém esfomeado, a ação parece mesmo muito inverossímil. Mas o mito do sal no prato do cangaceiro reclamão se repete, continua a ser contado longe dos cânones da historiografia. Ele é, hoje, uma história de Lampião.
Virgulino Ferreira da Silva se foi em 1938. Ele estava em um vale isolado, no estado de Sergipe, próximo do rio São Francisco. Sua história lembra um romance de aventuras. Pródiga, distinta de todas as outras, tão individual e acessível, tão necessária que ele leu a primeira biografia a seu respeito – e chegou a apontar incorreções.
Hoje, calcula-se que sejam mais de 1.500, sem incluir teses acadêmicas, estudos teóricos em publicações especializadas, artigos em jornais e revistas, cordéis.
A história de amor entre Lampião e Maria Bonita, um legítimo romance de aventura, só podem ser projetados como ficção coletiva.
Os soldados retiram as onze cabeças das latas de querosene. Ajeitadas em forma de pirâmide invertida nos quatro degraus da prefeitura de Piranhas, interior de Alagoas, elas fedem, pingam uma mistura de álcool, salmoura e fluidos humanos.
“Ninguém tratava o cangaceiro como bandido, mas como justiceiro que ocupava o espaço deixado vago pelo Judiciário e pela polícia, ausentes ou mancomunados com os coronéis, os grandes proprietários de terra e donos do poder no sertão, em geral responsáveis pela nomeação das autoridades em sua região.”
Às 6h30 da manhã chegaram ao destino, atirando. José Ferreira (pai de Virgulino) foi levado para um dos quartos e morto, sem direito a defesa, à queima-roupa. É muito provável que Amarílio e Pereira conhecessem a identidade do patriarca dos Ferreira e tenham usado a força volante de José Lucena para vingar-se da família. A propriedade foi saqueada e destruída. José Ferreira, abrigado na casa de um assassino perseguido pela polícia, morreu enredado na trama dos filhos, que começou com uma briga de vizinhos por causa do roubo de algumas peles de bode. Tinha 48 anos e foi enterrado ao lado da mulher, em Santa Cruz do Deserto.
“De hoje em diante eu vou matar até morrer”, disse Virgulino. Para ele, não havia outra alternativa. Órfão, sem terra, posses ou dinheiro, visado pela polícia, a partir daquele momento seu lugar seria no cangaço, onde já tinha cadeira cativa no bando de Sinhô Pereira.
Quem começa o livro não quer parar a leitura. É muito bom. É o retrato de uma época que ninguém acredita ter existido.
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WAGNER GUTIERREZ BARREIRA nasceu em São Paulo, em 1962. Jornalista, trabalhou nas revistas Veja e Aventuras na História, no jornal O Estado de S. Paulo e na TV Cultura. Também foi diretor editorial de mídias digitais na Editora Abril e professor de Técnicas de Reportagem e Teoria do Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica paulista. Vive em São Paulo e tem três filhos.
Maceió, 06/01/2019.
Abel de Oliveira Magalhães.

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