2018 – 13º livro – Maria Bonita

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Maria Bonita
Adriana Negreiros
A mulher mais importante do cangaço brasileiro, que inspirou gerações de mulheres, ganha agora sua biografia mais completa e com uma perspectiva feminista. Embora a mitificação da imagem de Maria Bonita tenha escondido situações de constante violência, ela em nada diminui o caráter transgressor da Rainha do Sertão. Desde os anos 1990, a data de nascimento de Maria Bonita passou a ser celebrada no Dia Internacional da Mulher. Com o tempo, ela transformou-se em uma marca poderosa, emprestando seu nome a centenas de pousadas e restaurantes espalhados pelo Nordeste, salões de beleza, academias de ginástica, cerveja, pizza, assentamento rural, música, bandas de forró e coletivos feministas. Enquanto a companheira de Lampião viveu, no entanto, essa personagem nunca existiu. A cangaceira que teve a cabeça decepada em 28 de julho de 1938 era simplesmente Maria de Déa: uma jovem de 28 anos que morreu sem jamais saber que, um dia, seria conhecida como Maria Bonita. Nos anos em que viveu com Lampião e nos subsequentes à sua morte, despertou pouco interesse em pesquisadores ou jornalistas. E foi essa lacuna de informações sobre sua vida e a das outras jovens que viviam com o bando que contribuiu para que se criasse a fantasia de uma impetuosa guerreira, hábil amazona do sertão, uma Joana D’Arc da caatinga. Essa versão romântica e justiceira de Maria Bonita, rapidamente apropriada pela indústria cultural, tornou-se um produto de forte apelo comercial ― e expandiu seus limites para além das fronteiras do sertão. Neste livro, Adriana Negreiros constrói a biografia mais completa até então daquela que é, sem dúvidas, a mulher mais importante do cangaço – Pensamento da editora.
Trata-se de um belíssimo livro. Adriana Negreiros deu um show de competência com a publicação da obra. Apesar da imensa aridez do tema, ela prende o leitor do começo ao fim. Bem diferente de Ariano Suassuna e Graciliano Ramos, a leitura é tão saborosa que o leitor prefere deixar os temas midiáticos modernos para se debruçar no referido livro.
O volume de informação cultural sobre o assunto enriquece o leitor de maneira satisfatória, o qual se surpreende sempre. Impressiona a coragem das mulheres seguidoras dos cangaceiros e a atitude corajosa e grosseira dos que faziam o grupo liderado pelo Lampião. O volume de informação é tão grande que o prestígio do bando extrapolou as fronteiras nacionais e internacionais. O mundo inteiro queria saber notícia do grupo, principalmente do Capitão Virgulino Ferreira.
A seguir, algumas atitudes próprias do grupo:
“Depois de dias de desidratação intensa, os cangaceiros queriam beber todo o líquido de um açude. E vomitavam em seguida. Para segurar a água no estômago, mordiam rapadura. Sempre a fonte estava contaminada com besouros, larvas de insetos e fezes de cabras. O jeito era filtrar o lodo na jabiraca”.
Não podiam nem pensar na polícia. “Na fazenda Bom Conselho, na Bahia, cangaceiros amarraram a um poste um fazendeiro que os denunciara à polícia. Exigiram que a esposa e os seis filhos do cidadão permanecessem no terreiro onde ele seria executado, para ver tudo. Com uma faca, Virgulino arrancou os olhos do senhor. Na sequência, tomou distância, mirou os dois buracos no rosto do homem e terminou de matá-lo com tiros de pistola”.
Onde chegavam, pegavam tudo. “Manoel Salinas trabalhava na roça quando viu sua propriedade ser cercada por um grupo de bandoleiros. Tão logo desceu do cavalo, Lampião lembrou ao velho os motivos pelos quais ele seria punido. Convocou os filhos do homem e deu início ao castigo. João, José e Antônio foram executados com tiros na cabeça. Tributino, o caçula, foi orientado a subir ao telhado, com um pau na mão, e quebrar todas as telhas da casa. Enquanto isso, o Rei do Cangaço trabalhava em Manoel Salinas: cortou-lhe as orelhas, arrancou-lhe um olho, extraiu-lhe os testículos e extirpou-lhe os lábios, deixando os dentes à mostra. Depois, pediu aos cabras que o acompanhavam para destruir a dentadura do homem a coronhadas. O pequeno Tributino aproveitou que todos os bandoleiros estavam concentrados na tortura para fugir pelo telhado. Com sangue espalhado por todo o corpo, a figura sinistra de Salinas — sem lábios, sem dentes, sem orelhas e com um olho vazado — foi colocada no lombo de um cavalo e levada até uma propriedade vizinha, onde morava Ulisses, seu filho de 23 anos, recém-casado e pai de uma menina de dois meses. O rapaz foi executado com dois tiros, diante da esposa, que foi obrigada ainda a presenciar a morte do sogro, cujo sofrimento foi finalmente encerrado com um golpe de punhal desferido pelo cabra Quixabeira. Segundo se espalharia pelo sertão, o cangaceiro teria ainda aberto o peito do homem, arrancado o coração e arremessado o órgão no meio do mato. Maria Rosa do Espírito Santo Brito, esposa de Salinas, bem como a mulher de Ulisses, tiveram suas vidas poupadas “para contar a história”, segundo lhes teria dito Virgulino. Além de Tributino, também escapariam suas duas irmãs, igualmente preservadas para servir de testemunha”.
A fama do cangaceiro aumentava. “Por aqueles tempos, a fama de Lampião já ultrapassava as fronteiras nacionais. No dia 28 de novembro de 1930, o New York Times noticiaria, pela primeira vez, as façanhas do companheiro de Maria de Déa. “Bandido brasileiro ataca cidade”, informaria o jornal, acerca das investidas do bandoleiro”.
O hábito da crueldade: “Dentre os meninos de Lampião, o mais afeito à ferrada era Zé Baiano. No bornal, a bolsa típica dos cangaceiros, carregava dois ferros de marcar boi com a inscrição JB, iniciais de José Baiano. Depois de esquentar o objeto no fogo em brasa, pressionava-o contra a face, a genitália, a nádega ou a panturrilha de suas vítimas, todas do sexo feminino. O ferro incandescente fazia liberar forte cheiro de carne queimada e marcava as mulheres em definitivo, como ocorrera, segundo a edição de 11 de junho do jornal A Noite, com a jovem Maria Felismina, da localidade”.
Estados onde atuavam os cangaceiros — Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco — seriam divididos em sub-regiões administrativas, a serem gerenciadas pelos chefes de subgrupos.
Pelos registros acima, a vida de Lampião não deve ter sido fácil. Ao longo de todo o livro, são feitos inúmeros registros dessa natureza. E as volantes sempre tinham medo de se encontrar com o seu bando. Até que um dia a polícia o cercou e dizimou o grupo. O grande trunfo foi a exibição das cabeças do bando como troféu em Piranhas AL e outras cidades.
Na conclusão do seu livro a autora fez a seguinte dedicatória:
…Especialmente, para minhas filhas amadas, Emilia e Alice. Este livro é para elas. Também para o Lira Neto, de quem tenho o imenso orgulho e privilégio de ser mulher — e por quem sinto um amor tão imenso que sem dúvida não cabe no mundo”.
Maceió, 21/12/2018.
Abel de Oliveira Magalhães.

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