O Diário de Anne Frank

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O Diário de Anne Frank, lido em Janeiro de 2018
Por Julia Araújo Magalhães

“Vejo nós como se fossemos um retrato do céu azul rodeado por nuvens negras e ameaçadoras. O trecho perfeitamente redondo onde estamos ainda é seguro, mas as nuvens se aproximam, e o círculo entre nós e o perigo que se aproxima está cada vez se apertando mais. Estamos rodeados por escuridão e perigo, e em nossa busca desesperada de uma saída vivemos nos chocando uns contra os outros. Olhamos as lutas lá embaixo e a paz e a beleza lá em cima. Enquanto isso somos cortados pela massa de nuvens, de modo que não podemos subir nem descer. Ela paira diante de nós como uma parede impenetrável, tentando nos enganar, mais ainda não conseguindo. Só posso chorar e pedir: ‘Ah círculo, círculo, abra e nos deixe sair!’”

Anne Frank foi uma menina alemã, judia, filha do empresário Otto Frank e da dona de casa Edith Frank. Teve uma irmã chamada Margot, dois anos mais velha que ela. Sua família refugiou-se na Holanda em 1941, fugindo das perseguições nazistas. Quando os nazistas penetram o coração holandês, a família Frank e mais quatro judeus tentam sobreviver durante dois anos em um anexo secreto construído no escritório de Otto.
Sobreviver. Essa é a palavra. Existir sem abrir as janelas, sem sentir a luz do sol, nem poder falar muito alto, sem poder ter contato com ninguém além dos mais estritamente confiáveis. Uma guerra já é degradante, momentos de medo sob as bombas são sufocantes e quando tensão e as discussões entre todos os membros do Anexo explodem, a convivência torna-se quase insuportável.
“A casa tremia e as bombas continuavam caindo. Eu estava agarrada com minha sacola de fuga, mais por querer segurar alguma coisa do que porque queria fugir.”
A tensão e o estresse de quem vive a guerra são pano de fundo para os dois anos que acompanhamos uma menina que precisa crescer demais em pouco tempo. Iniciamos a leitura com uma Anne mimada, ambiciosa, fútil e egoísta, que não consegue engolir o “amor menor” que sente pela mãe e o abandono de sua vida comum. Essa Anne cresce e em dois anos se torna uma excelente escritora, uma garota forte e inteligente, de personalidade incrível, que não pretende aceitar a condição de inferior que lhe é imposta, seja pelos antissemitismo ou pelo machismo daquela sociedade.

“Uma das muitas perguntas que me incomodam é por que as mulheres eram vistas, e ainda são, como inferiores aos homens… Ainda bem que a educação, o trabalho e o progresso abriram os olhos das mulheres… As mulheres modernas querem o direito de ser completamente independentes. Mas não é só isso. As mulheres devem ser respeitadas também”
O mais triste do diário não são as descrições das bombas, da guerra, da perseguição antissemita, mas sim as passagens em que Anne sonha com o futuro. “Vou ser uma grande jornalista”, ela sonha. Anne quer importar para o mundo. Anne tem como hobbie montar árvores genealógicas de personalidades famosas e gosta bastante de mitologia. Desde menina, ela escreve contos e histórias, estuda diversas línguas, promete voltar para a escola quando a guerra acabar… e nada disso acontece. Junto com os corpos, os sonhos foram jogados em valas.
Meu professor de História preferido costumava dizer que não podemos apenas estudar a história, precisamos senti-la. O diário de Anne Frank é a prova disso. Sentimos a dor, sentimos o desespero, e então temos a consciência do quão importante é não deixarmos governos totalitários assumirem novamente, do quanto uma guerra pode marcar uma geração.
A última carta é a mais bonita e profunda e tem a capacidade de nos deixarmos ainda mais sentimentais pelo fato de Anne Frank nunca a ter continuado. Três dias após sua escrita, o Anexo é invadido por policiais. Quem ali morava e quem os ajudava foram presos; de lá, são encaminhados para Westerbork, o campo de triagem de prisioneiros, e depois são deportados para Auschwitz (Polônia). Entre janeiro e fevereiro 1945 Anne e sua irmã morrem no campo de concentração de Bergen-Belsen de tifo, aproximadamente entre quatro e três meses antes de o campo ser libertado pelas forças Aliadas.

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