2017 – 4º livro – A república da propina

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A república da propina
Márlon Reis
“Um dos criadores da lei da ficha limpa, o juiz Márlon Reis trabalhou por quase duas décadas no interior do país acompanhando processos eleitorais. Também leu mais de mil sentenças da Justiça Eleitoral, além de estudos internacionais. Essa imersão em histórias de compras de voto e outras fraudes originou este romance que, nas palavras do autor, “não é bem uma ficção; é uma trama baseada num realismo nada fantástico”.

O narrador é Cacá Furtado, assessor do deputado federal Cândido Peçanha – que, por sua vez, protagonizou o best-seller O nobre deputado, publicado por Reis em 2014.

Em A república da propina, Cacá relata histórias inspiradas em casos reais, como o do prefeito eleito que mandou capangas retirarem a caixa d’água de uma eleitora ao descobrir que ela votara em outro candidato – e se tornou o primeiro político do país a perder um mandato em virtude da compra de um único voto.

Ao longo dos anos, Cacá descobre sua vocação: escrutinar almas em busca de favorecimentos. Seja o velho Jonas, disposto a fazer campanha em troca de remédio para impotência, seja o candidato Dinho do Filé, massacrado nas urnas depois de se recusar a presentear sua comunidade, todos fazem Cacá perceber que a dignidade sempre está à venda. É tudo uma questão de saber o preço de cada um” – mensagem da editora.

O livro mostra as peripécias de um assessor de candidato; as dificuldades enfrentadas para eleger o candidato. Destaca a influência dos sindicatos de todos os segmentos sociais e o desequilíbrio que pode ter consequências danosas para a sociedade em geral. Ele realça o poder que tais representações classistas têm. São os sindicatos de bancários, de funcionários do judiciário, dos policiais, dos caminhoneiros, aeroviários, agentes alfandegários etc. Pense no poder que essas organizações têm estribadas no movimento grevista e suas consequências para a comunidade como um todo.

Tudo o que o autor testemunhou enquanto trabalhou em sua profissão corrobora a sua descrença em nossa espécie. Grande parte de seu desalento vem do convívio com os eleitores. Ricos ou pobres, brancos ou negros, altos ou baixos, que não buscam auxílio para a solução de problemas da comunidade, todos são parecidos. Estão lá em busca de lenitivo para males pessoais. Não reivindicam hospitais nem postos de saúde. Querem remédio grátis para seu mal passageiro. Não pedem ambulância para a comunidade, mas carona em carro até um hospital. Não buscam saneamento básico, mas internação para o filho com diarreia. Não querem o município atraindo indústria, mas pedem trocado para a feira. Não querem impostos justos, mas perdão para o tributo devido. A lei morre onde nasce o eleitor pedinte.

Vivemos numa sociedade de hipócritas, exigindo das classes dirigentes aquilo que nós mesmos nunca entregamos: honestidade e comprometimento com o bem comum. No Brasil isso é coisa escancarada.
Maceió, 18 de fevereiro de 2017.
Abel de Oliveira Magalhães.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Olá Abel,
    Penso que sua sinopse e sobretudo o eixo do livro nos propõe uma reflexão mais aprofundada sobre nossa tão sofrida sociedade desprovida de informação e que em grande parte, senão a maioria, infelizmente no nosso tão sofrido nordeste, sub-existe até hoje, a partir do estado provedor e seus políticos detentores do poder de distribuir o orçamento, sugado de todos os que pagamos impostos, como se deles fosse. As raízes que alimentam esse paradigma, muito provavelmente ainda estão ligadas ao desconhecimento, analfabetismo ainda generalizado, miscigenação indígena, entre outras tantas decorrentes de nosso modelo de colonização portuguesa, que tão tardiamente nos libertou da escravatura e que intrinsecamente promoveu grandiosa e espessa barreira ao conhecimento. O desafio e superação dessa moléstia torna-se ainda maior, face a constatação segundo a visão de que somos a república dos amigões, – todos os BRICS aí incluídos, teoria sobre a qual juntam-se empresários e governantes de forma insidiosa, para usufruírem da seiva da produção nacional em benefício próprio em detrimento da população geral. (Veja excelente artigo do Norman Gall na veja do ultimo domingo). Não há solução de curto prazo. Nesse aspecto, a Lava Jato é uma luz que precisamos protejer, porque se não eles vão apagá-la…. Aliás, já estão tentando…
    Abr
    Fernando
    (nota > acabo de baixar o livro; e inicio a leitura brevemente. Obrigado por compartilhar comigo sua biblioteca)

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