Minha História

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Apresentação.
A seguir, temos uma história singular. É a história de uma moça sofredora, que teve o dom de saber escrever. De família pobre, pouco estudo, sentiu, desde menina, um apelo estranho. Gostava de escrever. Escrevia, escrevia… Amassava o papel e jogava no lixo. Fazia-lhe bem. Aliviava o sofrimento.
Sempre alimentou um sonho. Encontrar um amigo que merecesse a confiança de ler os seus manuscritos. Não por acaso o seu trabalho me chegou às mãos com o título em epígrafe.
Um dia nos conhecemos. Houve uma grande afinidade. Temos gostos parecidos. Gostamos de conversar. Sem saber de nada, ela sentiu que era chegada a hora de poder confiar em alguém.
Voltou para São Paulo sem dizer nada. Começou a escrever de novo. Desta vez, de maneira caprichada e com um pensamento definido. Preparou 25 páginas manuscritas, lapidou o papel e me entregou. Guardei o documento. Dediquei o tempo a outros afazeres. Um mês depois, veio a primeira cobrança de maneira cuidadosa. “E aí, Abel, que achou do trabalho?” “Que trabalho?”, perguntei. Com vergonha, e me comprometi a corrigir a falha.
Ao desengavetá-lo, fiquei surpreso à medida que avançava a sua leitura. Trata-se de uma história pessoal e cheia de emoções, cujas passagens nos servem de exemplo.
Ante o valor do conteúdo, tive a ideia de publicar em forma de capítulos, numa maneira de prestigiar a autora e ao mesmo tempo aprender as suas lições de vida, além de estimular os associados do FAM a esgrimirem o maravilhoso universo da escrita. Por conta disto, pelo menos três outros projetos, no gênero, brotaram em formação. Esperamos que “Minha História” seja a alavanca que impulsionará muitos dos nossos associados a escreverem, a fim de transmitirem as suas mensagens de vida ao mundo.
Agradecemos à autora a confiança depositada e auguramos sucesso.
Abel Magalhães.

A você, meu grande amigo!

Eu estava procurando você, e talvez você estivesse também à minha procura, ambos perdidos no ruído do mundo exterior, na luta constante pela nossa sobrevivência.
Na insegurança do amanhã, o nosso olhar se perde na vastidão do nada, e o nada nos amedronta. Nossos passos são incertos. Para onde vamos? Duvidamos do nosso próprio rumo. Desejamos encontrar algo indefinido. O que será? Talvez nós mesmos.
E assim caminha você, caminho eu, caminha toda a humanidade.
Hoje, felizmente, foi diferente. Encontrei você, meu grande amigo, o qual me deu muita coragem de sintonizar a freqüência vibratória do nosso eu. E retornaremos ao nosso dia-a-dia, conscientes do valor real da nossa existência. Vamos, unidos, captar no silêncio de nossas almas, aquela Força Eterna de Luz.

Uma pequena história

Através destas páginas vai uma pequena história que alguém precisa começar. Pode sentar, calar e ouvir?
Este é o começo de uma vida muito insignificante mas, que não deixou de ser uma vida! Em algum espaço do mundo havia um lugar que era dirigido por irmãs de caridade. Não sei como nem por que fui deixada ali com três meses de idade. Afinal, quem sou?
Esta é uma pergunta sem resposta que até hoje se perde no além.
O tempo foi passando. Fui crescendo sem saber o que vinha pela frente. Até que um dia passei a me conhecer como gente. Aquelas maravilhas que me cercavam, pensei que fossem tudo! Eu não entendia nada, nem mesmo como fui parar ali. Tudo era confuso. A situação em que me encontrava na luta pela sobrevivência, envolvendo-me num redemoinho de apreensões, de temores, de insegurança e desânimo crescia com o medo. Com o passar dos anos, comecei a entender alguma coisa. Eu achava tudo muito estranho. Mesmo assim passei a acreditar que a vida não era um mar de rosas; que nada seria como a gente queria que fosse. Há tantas coisas que, para se aprender, não é preciso que alguém ensine. A própria vida se encarrega.
Passei a prestar mais atenção em tudo aquilo que me cercava. Notei que algumas das meninas eram tratadas diferente. Eu só queria entender o por quê. Enquanto elas brincavam, eu ficava de longe observando, tentando me igualar a elas. Estava sendo difícil. Eu não aceitava tanta diferença, se estávamos no mesmo lugar. Se éramos todas iguais, por que esta separação?
Nesta mesma situação havia outras meninas. Decidimos então nos juntar e formarmos uma turma. Daí por diante tudo começou a mudar. Eu já sabia fazer alguma coisa, como varrer, tirar pó, catar lixo, etc. Estes pequenos serviços não passavam de uma adorável brincadeira. A educação era muito severa e tinha que ser respeitada. Quanto a isto eu respeitava muito. Já entendia o suficiente para separar o certo do errado.
Um dia estávamos varrendo a calçada e achamos um velho livro de história sobre as noites de Natal. Reunimos a turma e tentamos fazer esta festa. Era uma ceia maravilhosa onde incluía vários tipos de frutas. Sabíamos que não seria possível realizar a festa, porque não tínhamos visitas. Mesmo assim, tentamos fazer o melhor possível. A única fruta que seria fácil era a laranja e a banana, porque eram servidas todos os dias. Na verdade, não conhecíamos outras, a não ser de nome. Arranjamos um esconderijo e passamos a guardar tudo que conseguíamos, até o pão que era servido no café da manhã. A ansiedade era tanta que, malparamos para pensar que o Natal ainda estava muito distante.
O tempo foi passando. Nossa festa estava prestes a se realizar. Faltavam poucos dias para a chegada do Natal. Resolvemos ir ao esconderijo para os últimos detalhes. Sem saber que estávamos sendo vigiadas, quando chegamos ao esconderijo, vi o mundo desabar. Não havia nada a não ser um enorme formigueiro. Desanimadas e silenciosas, saímos de lá. Não tinha nada a fazer. O tempo era curto. Só faltavam dez dias.

Nosso grande Natal

A irmã que estava nos vigiando nos pegou e fomos todas para o castigo que seriam quinze dias. Lá se foi o nosso Natal tão desejado!
Demorou muito tempo para esquecer esse dia que só nos deixou um grande vazio. Mas a festa que planejamos ficou em nossa mente por um longo tempo. Esse Natal era a única chance que tínhamos para conhecer um pouco da felicidade. Ser feliz não é tudo que se ganha. Ser feliz é perceber a sábia natureza ensinando os homens a confiarem no amanhã feliz.
Essa festa de que não participamos passou a ser um sonho. Não conseguimos realizar a festa mas conseguimos sonhar. Um sonho que, mesmo depois de ter desmoronado, conseguimos reerguer em nossas mentes. Essa festa passou a ser o nosso assunto de todos os dias. Falávamos tanto dela que tudo parecia real. Era um sonho maravilhoso!
Se tivéssemos realizado a festa como foi planejada, não seria tão bonita quanto o sonho, que foi tão real e prolongado. Tenho plena certeza de que minhas amigas, se ainda existirem, jamais esquecerão esse sonho.
Este foi o nosso grande Natal, sem brinquedo, sem comida, sem amigos, mas que não deixou de ser um feliz Natal. O sonho valeu por tudo. Foi uma realidade tão divina que, daí por diante, aprendi que, se nossos dias forem de ais e sofrimentos, que nossas lágrimas sejam de resignação e jamais de desespero. Hoje, o que sei, o que sou, o que faço, só posso agradecer a Deus, que me deu forças e me ensinou a entender a sublime mensagem que a natureza nos envia. Quando se tem uma luz interior não há trevas nos corações, nem escuridão nas consciências. Tudo é Sol, Calor, Energia, Deus!
Foi assim que também aprendi a chorar, a sorrir, a enfrentar as mais cruéis das batalhas. Eu não podia fazer nada contra todos aqueles que me pisoteavam. Eu não tenho forças nem poderes para lutar contra um batalhão. Numa batalha melhor vence quem melhor reflete, quem melhor pondera, quem melhor planeja. Todos nós possuímos as armas necessárias ao bom combate. O essencial é que saibamos manejá-las com maestria, para que no momento oportuno, a vigilância supere a divagação, a energia vença o tédio, a coragem supere o ódio e a vingança. Só assim venceremos as mais cruéis das batalhas, aquelas que travamos com o nosso ego humano e que constitui o triunfo do bem, da paz, da verdade.
A vida é uma grande batalha. É sempre triste e sofrido o atalho que une a ilusão à realidade. Por tudo isso não me magoa o desprezo dos meus pais. Aprendi a viver sem rancores.
Num dia cinzento, de muita chuva, alguém me chamou e fui correndo… A cada chamada era uma ordem. Nada me passou pela cabeça naquele momento, a não ser as broncas que já eram de costume. Atendi a chamada. Tive uma grande surpresa. Era o meu pai que por algum motivo resolveu me fazer uma visita. Quando estava a caminho da sala de visitas, acompanhada de uma das irmãs, ela ia me orientando como deveria me comportar diante dele. Primeiro, pedir sua bênção, cumprimentá-lo e agradecer pela boneca que ele trouxera, e não comentar nada sobre o orfanato. Era contra o regulamento.
Eu não era de muita conversa. Aquela visita mexeu muito comigo, principalmente com a promessa que ele me fez, dizendo que voltaria para me buscar.
Esta foi uma passagem muito marcante que ficou gravada para todo o sempre. Ao mesmo tempo foi passageira. Fiquei muito confusa. Chovia tanto! Parecia que a natureza chorava comigo. Era uma tempestade cruel e devastadora.
As horas passavam lentamente. A chuva, também. Logo tudo passou. Ele se foi. Eu fiquei só com minha amargura. Em seguida, me distraí com a boneca que ele me dera.
Fui para junto das meninas e acabei me esquecendo daquele rosto tão meigo e carinhoso que dizia ser meu pai. Rapidamente, tudo passou. Eu estava cheia de esperança, tão alegre que precisava encontrar alguém para dividir aquele momento tão especial. Eu tinha uma bonequinha feita de piche. Eu gostava tanto dela que não a trocaria por nada.
De repente uma das meninas me pediu uma boneca. Sem pensar duas vezes, dei a boneca que acabara de ganhar. Fiquei muito feliz, tão feliz quanto ela, pois consegui dividir com alguém aquele momento de felicidade. Passamos a brincar juntas e nos tornamos grandes amigas.
Tudo voltou ao normal. O tempo foi passando. Resolvemos então caminhar para outros sonhos, outras festas, porque ainda vivemos…. Qual seria nosso próximo sonho? Engano! Nunca mais tive chance para sonhar. Meus sonhos se transformaram em pesadelos.
Novamente fui chamada. Pensei que fosse meu pai. Na verdade, eu já estava gostando da idéia de ter alguém. Estava completamente feliz e cheia de esperanças. Mais uma vez vem aquela terrível tempestade. Na sala de visitas estavam duas irmãs à minha espera. Sem perguntas nem respostas lá vou eu sem saber para onde e nem por que. Não tive nem sequer a oportunidade de me despedir das amigas e nem pegar a minha pretinha de quem tanto eu gostava. Sem entender nada, tive que acompanhá-las. Foi uma viagem longa, triste e silenciosa. Eu ainda não entendia muita coisa. Tinha que aceitar tudo com naturalidade. As tempestades reboam ao longe. Quando, porém, nos atingem diretamente, esquecemos de procurar abrigo seguro dentro de nós mesmos, onde Deus ali está como Pai a nos oferecer a força do seu imenso amor.
Cheguei ao outro orfanato na madrugada. Era bem distante de São Paulo. As meninas estavam todas dormindo. Eu não podia dormir. Tudo girava a minha volta. Nesse momento eu só precisava de uma simples palavra para colocar a cabeça no lugar.

Nova experiência

O dia amanheceu. As meninas foram se levantando uma a uma. Eu estava totalmente desorientada. Não conseguia me levantar. O mundo inteiro parecia desabar sobre minha cabeça. Eu só queria que viesse alguém ao meu pedido sufocante de socorro. Nas horas difíceis devemos nos refugiar em Deus, para que a dor não nos destrua.
Logo em seguida fui medicada. E ali mesmo fiquei sendo tratada por longo tempo. Sem entender nada, fiquei na esperança de voltar para tudo aquilo que deixei para traz. Eu não sabia que ali ia ser a minha nova moradia.
Eu estava passando por um enorme pesadelo. Mesmo entre os açoites das preocupações, das angústias e problemas que diariamente recebemos da vida, é necessário que saibamos preencher o vazio com a suavidade do amor, da bondade divina!
Pedi a uma das irmãs que me desse alguma coisa para passar o tempo. A irmã me atendeu carinhosamente. Trouxe-me uma boneca de pano, uma agulha, linha e algum retalho. Foi assim que comecei a aprender a costurar. Essa irmã que cuidava de mim parecia ter simpatizado comigo. Eu também simpatizei com ela. Tornamo-nos grandes amigas.
Talvez por esse motivo, estava sendo muito difícil fazer amizade com as meninas. Elas faziam tudo para me humilhar. Olhavam-me como se eu fosse uma penetra que entrou no mundo delas sem pedir licença.
Custei muito para me recuperar. Aos poucos fui me acostumando com o lugar. As meninas já tinham a turma formada e para conseguir a amizade delas, tive que entrar na turma. Eu não tinha escolha. Quanto à irmã que cuidou de mim, vinha me ver todos os dias. De repente ela desapareceu. E nunca mais tive notícias suas. Senti muito sua falta, mas nada eu podia fazer para encontrá-la. Eu me sentia muito só no meio de tanta gente e ao mesmo tempo sem ninguém.
O tempo passou. Eu já estava bem acostumada com o lugar. Um dia eu estava com a turma e notei que estava sendo observada por alguém. Era uma mulher em uma cadeira de rodas. Fiquei muito curiosa. Tentei chegar até ela, mas não deu. Não era permitida a nossa entrada no lugar onde ela se encontrava. Daquele momento em diante, não pude parar de pensar nela. Eu queria vê-la de qualquer jeito. Pedi a uma das irmãs que me levasse até ela, mas não foi possível. Era contra o regulamento. Mesmo assim tentei.
Num dia muito calmo, quase não havia ninguém por perto, fui até lá com muito cuidado para que ninguém notasse a minha presença. Tive uma enorme decepção. Era justamente a irmã que eu tanto procurava. Fiquei tão feliz quando a vi e ao mesmo tempo infeliz, pela situação em que ela se encontrava. A paz que procuramos, jamais nos será dada pelo mundo dos sentidos. Não tive coragem de perguntar o que havia acontecido com ela. Eu não queria magoá-la. Ela estava muito preocupada por eu ter chegado ali. Eu estava tão contente que não estava dando a mínima para o castigo. Tivemos uma longa conversa. O tempo suficiente para que ela pudesse me dar alguns conselhos. Eu a escutava com muita atenção. Quando achei que tudo estava bem, vem outra tempestade terrível. E lá vou eu novamente.
Eu já não tinha mais coragem para enfrentar a dura realidade. Não tinha mais tranqüilidade. Em todo momento, em todo lugar, eu ficava aguardando pelo próximo vendaval. No amparo da minha fraqueza, no caminho pedregoso da minha existência está um Deus! Então, por que temer a derrota?
Novamente volto para São Paulo. Fiquei em um lugar provisório onde não havia irmãs nem escola. Achei muito estranho, mas nada eu podia fazer, a não ser aguardar a sentença. Era um lugar completamente esquecido pelas autoridades. Parecia um albergue onde se recolhem os enjeitados. Eu esperava por um lugar melhor. Minha vida parecia um joguete nas mãos do povo. Não havia lugar para me despejarem. Tive que aguardar por um longo tempo.
Ali completei dez anos de idade – sem sorte e sem futuro. Aos poucos, tudo estava se desmoronando como se tivesse um prazo determinado para se acabar. Tudo foi se acabando aos poucos. As meninas maiores foram sendo transferidas para outros lugares. Restamos eu e mais duas meninas.
Continuamos ali ainda por alguns dias quando, de repente, alguém nos chamou dizendo que íamos dar uma volta. E lá vamos nós novamente enfrentar mais uma terrível tempestade. O carro rodava disparadamente. Parecia não sair do lugar. Essa viagem parecia não ter fim. Quando chegamos ao destino, vi um enorme portão de ferro com um grande letreiro. Assustei-me com o nome. O que será que eu ia fazer ali? Fiquei completamente chocada. H.C.J. – F.R. Seu significado: Hospital Central Juqueri – Franco da Rocha. Daí vêm verdades cruas, histórias erradas, gestos apressados, sonhos desfeitos, futuros que não se cumpriram. A porta da caçapa se abre como a boca de um monstro ameaçador. Rostos assustados surgem diante dos meus olhos. Meros vultos tão pequenos e assustados quanto os meus. Tudo se precipitou sobre mim. A raiva de rostos anônimos que iam mais e mais rapidamente diante dos meus olhos. À esquerda, à direita, por todos os lados, o medo da morte que vem com o cansaço, com as dores. Os rostos ferozes clamam por vingança. Nunca me senti tão só em toda minha vida.
Os rostos chegam mais perto, mais ferozes e barulhentos. Passos estalam no chão que queima, queima, deixando a gente louca. Zonza, fico vencida pelo cansaço e pela dor intensa. Mais rostos encurralam-me dentro do meu medo. Eu grito e esperneio. Grito, choro, esperneio, quero gritar por qualquer um, por qualquer coisa, por minha mãe.
Estou sem forças. As roupas grudam em meu corpo, molhadas de suor. Não gosto do cheiro dessas mãos, e desses rostos que se apertam em torno de mim, com pressa, com raiva, com a mesma e antiga rispidez de anos. Certas coisas não mudam.

Vida Cruel

Penso no passado e encontro forças para lutar ainda por alguns segundos contra o inevitável. Esforço inútil. Os rostos soados transformados em horrendas máscaras de ódio insano. O sol é um grande olho vermelho que fere os meus com violência. Ouço alguém choramingar. Meu corpo bate com força contra o chão e sinto-me mergulhada definitivamente na escuridão. É como se estivesse ali para morrer. O calor é assustador. O ar sufocante. Pessoas enfurecidas me rodeiam. Os olhos dos outros, criaturas da escuridão, cintilam à minha volta, apreensivos, cheios de indagações. Uma delas continua chorando. Se eu não estivesse com tanto medo, também teria chorado.
Este é o mesmo caminho da morte, anônima, do simples desaparecimento, da solução rápida de todos os problemas. O inferno é bem menor!
Meu corpo dói. Meu coração bate sem parar. Todos os pensamentos da vida passaram por minha cabeça. Presa numa caçapa apertada, tropeçando em pernas e braços, nos resmungos dos outros e no choro doloroso e miúdo da menor de nós, nesse momento, juro que gostaria de gemer… “Mãe, tenho medo de morrer”. Mais que a vontade, há a realidade que nos empurra para um lado quando queremos ir para o outro. Encurralados, empurrados, vai-se para onde a vida nos leva. Tive consciência, uma consciência verdadeira e não menos dolorosa da minha condição.
Acrescentei algo mais à minha existência: raiva, frustração, ódio e uma revolta mortal. Passei a odiá-los, a todos os uniformes carimbados, aquelas malditas iniciais que me cercavam o tempo todo – H.C.J. Aquela gente que ia e vinha à minha volta, dirigindo-me olhares amedrontados de aversão ou desprezo. A vida era dura demais. A sobrevivência injusta, brigava-se por tudo.
Outubro, fim de ano, completei onze anos de idade. Lembrei-me com uma profunda tristeza como seria o Natal naquele lugar horrível, onde só havia loucos e mais loucos. Bem poucos eram conscientes.
Meus olhos dançaram em lágrimas. Infelizmente chegou o dia. Aquela noite de Natal foi a mais triste de toda a minha vida pois, de um momento para outro, descobri que estava só. Desde aquele dia, passei a não gostar das noites de Natal. Trata-se de uma data implacável para quem não tem ninguém.
Juntei-me com as duas únicas amigas que chegaram lá comigo e tentamos fazer alguma coisa para que esse dia se tornasse menos triste. Tentamos fazer desse dia um dia especial. Rezamos muito e fizemos uma saladinha de mato e um bolo de barro. Comemoramos juntas um Natal sem graça. Não havia alegria, apenas uma vontade louca de esquecer que era Natal; que não tínhamos ninguém, além de nós mesmas. Rimos feito loucas para acreditar que éramos felizes.
Foi assim que a minha alegria terminou, porque a própria lágrima chorou! Dias se multiplicaram e anos se passaram quase sem que eu percebesse. Estava muito ocupada crescendo e lutando pela minha sobrevivência. Completei doze anos de idade nesse lugar horrível, sem fé, sem esperanças, sem futuro, sem ninguém. Aqueles absurdos que eu via diariamente eram assustadores. Não tinha como raciocinar com tanta barbaridade! É muito difícil para um ser humano valorizar atitudes, intenções e sofrimentos. Os atalhos da vida nos cobram um retorno bem mais longo e prolongado.
À medida em que eu crescia, as pessoas se tornavam mais difíceis de ser compreendidas. Eu não compreendia a mim mesma e as coisas que passavam por minha cabeça.
Neste lugar não era possível usar tudo aquilo que aprendi com as irmãs, principalmente a educação que, para mim, estava acima de tudo. Ali tudo era aos empurrões e grosserias. Era do tipo ‘salve-se quem puder mais’. Como eu poderia me comportar num lugar onde tudo era desordem? Nomes efêmeros que se perdem no esquecimento, no pouco tempo para pensar. Eu já estava cheia de cicatrizes. Depois de olhar por algum tempo para traz, percebi que já andara demais para dentro daquela existência, para simplesmente recuar sobre meus próprios passos, sobre erros que não começaram comigo, mas com duas pessoas desconhecidas em algum lugar do passado entre o grande vazio de meus primeiros anos.
Sem parar para pensar, e com muita revolta, tornei-me uma das tantas loucas, embora consciente de tudo que fazia. Já não pensava mais em meu destino. Qualquer destino é igual a outro. Nenhum deles me levaria a lugar pior. Tropeçando e caindo, chorando de medo, via o mundo encurralando-me cada vez mais, o medo de ser chutada como coisa nenhuma. Onde encontrarei respostas para todas as minhas dúvidas, descrenças e sofrimentos?
Só a fé é que ilumina tudo durante os duros momentos que a vida nos apresenta. Na verdade, uma vida sem lutas, sem dores, sem sofrimentos é realmente uma pobre vida…!

Novas experiências

Três anos já se haviam passado. Eu estava com 13 anos. Realidades nuas e cruas, difíceis de engolir. A solidão aperta de verdade. Ela é escura e machuca. O resultado é sempre injusto.
Já não podia me lamentar, pois já estava habituada a tudo. Nada mais me atingia – culpa do mundo, culpa dos pais, culpas demais no fim das contas.
No início da vida, o crescimento é intenso. A partir dos sete, oito anos, o crescimento físico é mais lento. Não dá para estranhar as mudanças que vão ocorrendo. Mas a partir dos onze anos, as mudanças se tornam bruscas e intensas.
De qualquer maneira eu teria que mudar, mas, como? Nada mudou. Nada mudará. Vagos mundos que de um momento para outro deixaram de ser perfeitos.
Queremos ser felizes, mas não sabemos muito bem o que é isso. A canção nos diz que “a felicidade é como uma pluma que o vento vai levando pelo ar”.
Eu pouco dava importância ao tempo. O relógio do tempo é implacável… Caminha sempre, cobrando, a cada minuto, a cada segundo que deverão transformar-se em angústias e pesadelos.

Novas descobertas

Eu crescia rapidamente. Surpreendí-me quando, de repente, me olhei no espelho e notei que já não era uma menina sapeca. Não demorei muito em minha análise. Por instantes, fiquei frente a frente com a dura realidade da imagem onde as desilusões cavaram profundos desenganos. E lá se foram todas as poucas esperanças que ainda me restavam. A vida deveria ter mais do que apenas isso a oferecer a alguém de treze anos – mas com o corpo de nove.
Nada tinha a fazer, a não ser rezar muito por mim e por minhas companheiras algemadas pela dor, pela fome, pela injustiça, pela incompreensão. O que eu poderia colher daquelas mãos esquálidas que se estendem à nossa caridade para poder sobreviver? Estávamos no mesmo caminho.
Tinha a impressão de não ter o meu lugar em parte alguma. Tentei não pensar nisso. Eu ainda não conhecia nada que pudesse comparar àquele lugar. Senti uma grande necessidade de desafiar as autoridades. Na verdade, o sentido de paz está atualmente muito diversificado. Todos confundem a paz com a tranqüilidade, com ausência de problemas. A paz que Cristo nos oferece está no mundo subjetivo de cada ser humano! Assim, a vida na marcha para o além. É sorriso e lágrimas também.
Deixei de ser aquela menina pacata para ser mais dona de mim. Procurei divisar no semblante triste daquelas crianças indefesas, carentes, que não sabiam sorrir por que a vida nunca lhe deu uma chance.
Várias vezes tentei trocar o meu sorriso pelas suas tristezas, mesmo sendo tão amargo quanto o delas. Não é preciso lembrar as marcas, as feridas que tais situações deixaram no corpo e na alma, marcas que estarão permeando toda vida futura.
Quem mede a extensão a ser percorrida, os obstáculos a serem transpostos, não encontrará a persistência necessária para as grandes viagens. É aconselhável correr os olhos para a paisagem que nos rodeia. A natureza é pródiga em nos oferecer a sua Força.
A vida deu dois passinhos para a frente! Enxuguei as lágrimas dos olhos e, num canto qualquer, joguei todas as minhas mágoas e fui em frente. Por mais cruel que a vida seja, ela tem a sua continuação. Não valia à pena ficar indefinidamente dentro daquela dor. Assim, comecei a conhecer-me. Sou o intervalo entre o que desejava ser e o que os outros me fizeram. Ou metade desse intervalo, porque também há vida…. Sou isso, enfim…
Num lugar tão complicado, tinha que me esforçar duplamente para conquistar um espaço. Integrei-me pouco a pouco àquela gente. Fiz amizade com aquelas enfermeiras idiotas, para conseguir estender a mão àquelas crianças martirizadas, que mal sabiam comer, que de tudo precisavam um pouco e não sabiam pedir.
Transformei-me na conselheira, que lhes dava normas de conduta e dizia-lhes principalmente que não tomassem tudo pelo seu lado trágico. Ensinei-lhes a amar a quem jamais amaram. Seus problemas, às vezes, me pareciam ridículos mas sabia ouvir, e tinha sempre um conselho a dar.
Era formidável quando se tratava de problemas dos outros. Apenas para os meus problemas não encontrava saída. Meus problemas eram simples demais. Eu tinha que somar, diminuir, multiplicar. Resumindo tudo, acabavam em nada. Na verdade, eram problemas sem solução.
A jornada foi dura. Sozinha, sem ter com quem dividir minha angústia, não pensava em nada; não percebia mais nada. Estava totalmente fechada em mim mesma. Às vezes, não sabia nem mesmo se estava viva.
Alguns acontecimentos dessa época mal ficaram gravados em minha memória. Aliás, nenhum deles valia a pena ser guardado em minha massa cinzenta. Mas, com tudo isso, valia a pena lutar, porque é muito importante encontrar um caminho em direção a uma função que possa dar ao menos um pouco de alegria.

Tricô como Terapia

É muito difícil ter que optar por tudo sem ajuda de alguém numa escolha adequada. Louca de angústia, percebi que me entregara indefesa nas mãos desses médicos idiotas. Eles podiam me dar qualquer diagnóstico: neurose, esquizofrenia, ou sei lá o que mais. Não tínhamos nenhum direito quando éramos internadas em um hospital de loucos. As enfermeiras me tratavam como uma idiota, como as outras doidas. Eu me esforçava para nunca me mostrar agressiva com elas.
Quando os médicos me faziam perguntas, dava-lhes respostas diferentes das que me ocorriam espontaneamente. A minha vontade era responder com grosseria, mas tentava ser educada a todo momento. Tentava com todas as minhas forças ser, eu mesma, uma pessoa sempre normal. Quando eles me davam alguma coisa, eu logo me arrependia por não ter dito uma porção de besteiras. Então, certamente, eles deviam pensar que eu estava completamente louca. Tudo que me propuseram em matéria de terapia, foi fazer tricô. Assim, minhas amizades com as enfermeiras foram aumentando. Passei a me alimentar melhor e ajudar as outras que tanto precisavam de ajuda.
Eu já estava com 14 anos. Não tinha nenhuma experiência, não pensava em nada, nem como sair dali. Tudo parecia bastante irreal. Era uma viagem, um belo filme, mas a palavra “fim” logo chegaria. Só agora posso fazer a comparação de tudo.
Como descrevi antes, o inferno é bem menor. A evolução é o fator principal da nossa caminhada por esse planeta. Entretanto, essa finalidade precípua continua esquecida pela mente de todos onde a descrença e a desesperança se unem para a desintegração definitiva da criatura humana. O primordial na vida não é correr atrás do Ter! mas, sim, realizar-se através do Ser.
Hoje eu sou…! Ontem eu fui…! O real valor está na primeira expressão: “hoje eu sou”. O que fui ontem é o passado…(já esqueci) O que sou hoje é o presente. Através do meu ontem construí o meu hoje, e através do meu hoje farei o meu amanhã. Possuo o livre arbítrio para fazê-lo de paz. Ninguém erra o caminho quando traz a sua própria consciência sintonizada com a vós intuitiva de Deus! Se Deus não acreditasse em você, em mim e na humanidade, não teria criado tantas maravilhas. Aprendamos a ouvir Deus no silêncio intuitivo da nossa alma, na simplicidade de uma flor, na grandeza do mar, na gota de orvalho, na lágrima de dor, num sorriso de alegria, nas nossas lutas, no Universo que nos agasalha.

Hiato

Minha querida personagem, informo que este é o último material que disponho no momento. Não sei se você me remeteu mais alguma coisa. Assim, solicito a gentileza de me informar o que está acontecendo.
Aproveito para fazer sugestões. Penetre firme no universo de sua intimidade, descrevendo experiências emocionais, sexuais e atributos físicos. Relate o despertar de sua vida sexual e eventuais experiências no gênero, ainda que dolorosas e decepcionantes. Não se acanhe de fazer tais abordagens, uma vez que dará maior vivência real ao seu relato. Quando você se referiu aos seus 13 anos, pensei que ia fazer a abordagem mas passou muito ao largo. Se você fizer o que estou lhe pedindo, vai deixar todo mundo excitado e valorizando muito mais o seu depoimento. Inclusive enfeite ao máximo – tudo nos limites que não lhe prejudiquem. Sou admirador de seu trabalho e de sua pessoa. Assim, pode contar comigo para o que estiver ao meu alcance.
Um abraço especial.
Abel.
Maceió, 25 de Dezembro de 1997

Como se vê, a minha amiga resolveu se fechar num silêncio sepulcral. Nunca atendeu os meus pedidos para a continuação desse maravilhoso texto. Ela tem uma filha, que me informou o seu falecimento em abril de 2015. Desta forma, vou tentar descobrir os momentos mais importantes que a nossa protagonista viveu nos últimos anos de sua existência e assim, dar um desfecho razoável ao conturbado mundo de nossa simpática personagem.

Maceió, 14 de fevereiro de 2016,

(Aguarde a continuação desta história nos próximos dias)

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