CORRER – LIVRO DE DRÁUZIO VARELLA

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CORRER é o título do mais recente livro de autoria do Dr Dráuzio Varella, médico, escritor, maratonista e, acima de tudo, uma figura humana extraordinária.

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O livro é todo bom e recomendo sua leitura não somente para corredores e médicos, mas para todos as pessoas. Garanto que vão gostar.

Ao concluir a leitura resolvi compartilhar com meus amigos alguns trechos desse excelente manual e foi do “epílogo” que extraí o que mais gostei. Grifei as frases que considero verdadeiras “pérolas”.

Começa assim:

“Impossível imaginar quem eu seria hoje se continuasse sedentário como fui no tempo em que fumava”.

“O homem é o resultado do impacto cognitivo causado pelas ações que praticou e pelas que deixou de realizar, tanto quanto é consequência das lembranças arquivadas na memória e das que foram relegadas ao esquecimento”.

“Correr maratonas coincidiu com o período mais feliz e produtivo de minha vida, durante o qual pude concretizar os principais anseios da juventude, ao lado de outros que se manifestaram na maturidade”.

“Comecei a correr maratonas numa fase em que minhas filhas já estavam crescidas, a vida profissional bem encaminhada, a casa própria adquirida, as participações em campanhas educativas sobre a aids na Rádio Jovem Pan e na 89 FM – a Rádio Rock – ganhavam popularidade, o projeto do rio Negro abria meus olhos para Amazônia, e o trabalho no Carandiru me punha em contato com o universo da marginalidade. Estava preparado o cenário que me conduziu à vida que levo agora”.

“Já vivia ocupado com os pacientes e as outras atividades quando acrescentei a obrigação de treinar com regularidade para as provas de 42 quilômetros”.

“Insisto em maratonas sem ter certeza se o esforço exigido para completar 42 quilômetros poderia por em risco a vida de um homem com mais de setenta anos. No íntimo, algo me diz que o risco é baixo, bem menor que os benefícios colhidos, mas sei que faltam estudos com dados confiáveis. Afinal, quantos maratonistas há com essa idade? Não teria chegado o momento de reduzir a intensidade dos treinos e participar de provas mais curtas? Correr 10 quilômetros ou os 21 das meias maratonas não seria atividade física suficiente?”

“Se formos pensar nos benefícios à saúde, nem precisaria de tanto: bastaria andar trinta minutos por dia; mas a questão não é essa. Quem descobre a sensação de bem-estar e a euforia que a corrida traz não se contenta em caminhar”.

“A preparação para provas curtas pode ser improvisada em duas ou três semanas; para maratonas, jamais. Ninguém completa 42 quilômetros com meia dúzia de treinos. A vantagem da maratona é exigir a disciplina que me obriga a sair da cama às cinco da manhã, faça frio ou esteja no escuro. Sem essa premência acabo relaxando e deixando para o dia de são nunca, como tanta gente faz”.

“Na rua, quando vem em sentido contrário um homem de meia-idade com o cinto afivelado abaixo do abdômen proeminente e o rosto vermelho-azulado dos fumantes, tenho ímpeto de abordá-lo: Desculpe, mas vai acontecer uma desgraça em sua vida: infarto, derrame cerebral, obstrução de artérias, falência dos rins, não sei. Não sei quando nem qual será, mas vai acontecer”.

“Vejo a senhora sedentária, filha de pais com diabetes, que engorda vinte quilos na menopausa e sinto vontade de perguntar se não tem medo de adquirir uma doença traiçoeira com a deles. Diante do homem de quarenta anos com várias mortes por infarto na família, que insiste em fumar, comer à larga e passar o dia sentado, preciso me conter para não dizer que seu destino tem grande probabilidade de ser igual ao dos parentes”.

“Não é fácil para um médico ficar calado quando vê o fumante perder o fôlego ao subir dois lances de escada. Muitos consideram inúteis advertências como essas, propor mudanças de estilo de vida é das tarefas mais inglórias da medicina”.

“No passado, meus colegas viviam em contato direto com a comunidade. Enquanto passavam pela praça, recomendavam que a mãe protegesse o bebê do sol, que a senhora procurasse andar mais ereta, que o garoto lavasse as mãos antes de comer o doce. Com o crescimento das cidades, esse tipo de intervenção pessoal desapareceu. A praça hoje são os meios de comunicação de massa. Rádio, televisão, internet e o celular criaram a possibilidade de ensinar medicina para milhões de pessoas”.

“Exerço minha profissão faz quase cinquenta anos. Há dezesseis participo de séries sobre saúde no Fantástico, da TV globo, programa que chega aos rincões mais isolados do país. O tempo que sempre dediquei à clínica, as preocupações com os doentes, as angústias, as noites maldormidas, as férias e os fins de semana que deixei de aproveitar exigiram de mim muito mais do que o faz a televisão. O impacto social do trabalho na TV, entretanto, foi incomparável. De quantos doentes tratei? Quantas pessoas atingi pela comunicação em massa? Quantos fumantes ganharam motivação para largar o cigarro? Quantas pessoas abandonaram a vida sedentária?”.

“Enquanto corro, penso em tudo e em nada, porque depois não lembro do que pensei. O pensamento do corredor é caleidoscópio, é ave irrequieta que, mal pousa no galho, levanta voo outra vez. No meu caso a exceção são as frases que procuro encontrar quando estou envolvido com um tema que preciso comunicar pela TV ou internet.”

“No final de uma corrida de vinte quilômetros no Ibirapuera, encontrei a frase que foi ao ar (no Fantástico) no último episódio (de uma série) e que não canso de repetir: O CORPO HUMANO É UMA MÁQUINA CONSTRUÍDA PARA O MOVIMENTO”.

“A diferença de máquinas como o automóvel e o avião, também projetadas para o movimento mas que se desgastam ao executá-lo, o corpo humano se aprimora com a movimentação, tenha um ou noventa anos de idade”.

“Correr é experimentar a liberdade suprema, é voltar aos tempos de criança”.

“Uma vez por semana, há 26 anos, atendo doentes em cadeias de São Paulo. A proximidade com os dramas de mulheres e homens que a sociedade considera a escória odiosa que nos tira o sossego nas ruas, trancada feito bicho nas prisões brasileiras, trouxe para mim uma compreensão da vida, do comportamento e da alma humana, que seria inacessível sem essa vivência”.

“Depois de ver dez homens trancados numa cela de seis metros quadrados, dia e noite, durante meses de tédio, dormindo em turnos sobre folhas de papelão, correr no parque ao amanhecer do dia seguinte é experimentar no corpo a quintessência do significado da palavra LIBERDADE”

“Sair da cama para a poltrona, andar até o banheiro, movimentar o dedo do pé do lado paralisado, ficar livre da sonda nasogástrica e tomar cinco colheradas de sopa são eventos que os pacientes comemoram com grande alegria, porque lhes dão a esperança de que sairão do estado de fragilidade em que se encontram. Atravessada essa fase, no entanto, reassumem o cotidiano sem levar em conta a saúde, bem ao qual só atribuímos valor se escasseia”.

Ainda me surpreendo quando um homem escapa da morte súbita do infarto, faz cateterismo, ponte de safena com circulação extracorpórea, vai parar na UTI por vinte dias, com sonda urinária, cateteres nas veias, eletrodos no peito para monitorização contínua, dor na cicatriz, curativos, complicações pulmonares, sonda na traqueia, respirador artificial, toma antibióticos que provocam náuseas, analgésicos potentes e resiste com bravura. Os limites da resistência do ser humano estão além do que sonha nossa vã filosofia. O que me choca é que, ao emergir restabelecida desse inferno, a pessoa que passou por tal suplício seja incapaz de andar míseros trinta minutos diários”.

“Mulheres com câncer de mama enfrentam obstinadamente cirurgias mutiladoras que interferem com a autoimagem e a sexualidade, passam pelas náuseas, vômitos e o mal-estar da quimioterapia, perdem o cabelo, cumprem com rigor as sessões de radioterapia e os cinco anos ou mais de tratamento hormonal. Quando explico que andar trinta a quarenta minutos diários reduz em pelo menos 30% o risco de morrer por disseminação da doença, benefício semelhante ao da quimioterapia, ouvem atentas e juram que vão caminhar toda manhã. JURAMENTO FALSO, CONTO NOS DEDOS AS QUE CUMPREM A PALAVRA”.

“Consideramos o corpo humano um presente de Deus para nos servir e dar prazer pela vida inteira. Se, por acaso, ele ousa reagir aos mal-tratos e à tirania de nossas exigências, ficamos revoltados e maldizemos a sorte. Fui médico de um padre que fumou dois maços de cigarro por dia, durante trinta anos. Ao descobrir o câncer de pulmão, blasfemava e ofendia a Deus com palavras de baixo calão capazes de corar qualquer ateu, por ter enviado tamanha provação a um homem que havia dedicado a Ele a vida inteira”.

“Nos primórdios da epidemia da aids, atendi um rapaz que saía pelo menos duas vezes por semana com os garotos de programa que fazem ponto no Trianon, junto à Avenida Paulista, com os quais praticava sexo anal receptivo desprotegido. Quando lhe transmiti o resultado do teste, ficou pálido: “Não é possível. Logo comigo?”. A mesma surpresa teve um filho de árabes, no antigo Carandiru, que injetava cocaína na veia com seringa alugada dos companheiros de uma sela vizinha”.

“Nem todas as reações, entretanto, se apresentam com essa dramaticidade; muitas delas assumem a forma de resignação: “A pressão está alta porque já fiz cinquenta anos”. “Também, com tantos casos de diabetes na família”; “A velhice é uma merda”.

Ficar mais velho é inevitável, a alternativa é tão perversa que nem vale a pena considerá-la. Envelhecimento, porém, não é sinônimo de limitações, decadência física, solidão e enfermidade crônicas. De minha parte, se alguma coisa aprendi com as maratonas e os treinos necessários para completá-las, foi não levar a idade em conta. Confrontado com um desafio, procuro ver se me acho em condições físicas e intelectuais e se terei disciplina para enfrentá-lo; jamais considero o número de anos que juntei, porque a questão da idade vem contaminada por preconceitos arcaicos”.

“O medo do envelhecimento é um fenômeno moderno. Nossos ancestrais pouco se incomodavam com ele, a probabilidade de morte precoce era muito mais concreta”.

“A consciência de que não tenho muitos anos pela frente nem tempo para desperdiçar com futilidades nem interesse por pessoas que não se interessam por mim foi o maior dos benefícios que o passar dos anos me trouxe. À medida que meu horizonte encurta, aumenta a necessidade de me concentrar na busca do essencial, daquilo que me deixa mais feliz”.

“Na juventude, ia a três festas num sábado e ficava frustrado por ter perdido a quarta. Hoje, a família, os pacientes, as séries que gravo para a TV, as paisagens e as plantas do rio Negro, os livros, os congressos e o tempo para correr e escrever são tão preciosos, que fujo dos jantares e das rodas sociais”.

“Quando comecei a correr maratonas, achava suficiente participar de uma por ano. No período de julho de 2013 a setembro de 2014 corri quatro: Rio de Janeiro, Bueno Aires, Berlim e Boston, empreitada que me obrigou a treinar o ano inteiro com regularidade espartana. Quanto mais velho fico, mais prazer encontro em correr”.

“Cheguei aos 72 anos com dois a mais do que pesava ao sair da faculdade, sem doenças crônicas e sem precisar de medicação de uso contínuo, condição que devo sobretudo à genética e ao acaso, mas também ao esforço pessoal. O contato permanente com a morte e com os doentes que lutam para evitá-la, me ensinou a levar em conta o prazer de estar vivo, privilégio que tento manter presente em meu imaginário o tempo todo, especialmente nos momentos de adversidade”.

“NÃO ME ILUDO, SEI QUE A NATUREZA É IMPIEDOSA E QUE A MAIS INDESEJADA DAS CRIATURAS PASSA OS DIAS À ESPREITA, MAS, ENQUANTO NÃO BATE À PORTA, TENHO PRESSA PARA IR ATRÁS DOS SONHOS QUE AINDA NÃO REALIZEI E PARA CORRER PELAS RUAS ENQUANTO AS PERNAS RESISTIREM”.

Não é sem razão que sou seu admirador!……

Sobre o autor:

Drauzio Varella é médico cancerologista, formado pela USP.
Nasceu em São Paulo, em 1943. Foi um dos fundadores do Curso
Objetivo, onde lecionou química durante muitos anos.

No início dos anos 1970, trabalhou com o professor Vicente Amato
Neto, na área de moléstias infecciosas do Hospital do Servidor
Público de São Paulo. Durante 20 anos, dirigiu o serviço de
Imunologia do Hospital do Câncer (SP) e, de 1990 a 1992, o
serviço de Câncer no Hospital do Ipiranga, na época pertencente ao
INAMPS.

Foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS, especialmente do
sarcoma de Kaposi, no Brasil. Em 1986, sob a orientação do
jornalista Fernando Vieira de Melo, iniciou campanhas que
visavam ao esclarecimento da população sobre a prevenção à
AIDS, primeiro pela rádio Jovem Pan AM e depois pela 89 FM de
São Paulo.

Na Rede Globo, participou das séries sobre o corpo humano,
primeiros socorros, gravidez, combate ao tabagismo, planejamento
familiar, transplantes e diversas outras, exibidas no Fantástico.

Em 1989, iniciou um trabalho de pesquisa sobre a prevalência do
vírus HIV na população carcerária da Casa de Detenção do
Carandiru. Desse ano, até a desativação do presídio, em setembro
de 2002, trabalhou como médico voluntário. Atualmente, faz o
mesmo trabalho na Penitenciária Feminina de São Paulo.

Na Amazônia, região do baixo rio Negro, dirige um projeto de
bioprospecção de plantas brasileiras com o intuito de obter extratos
para testá-los experimentalmente em células tumorais malignas e
bactérias resistentes aos antibióticos. Esse projeto, apoiado pela
FAPESP, é realizado nos laboratórios da UNIP (Universidade
Paulista) em colaboração com o Hospital Sírio-Libanês.
Livros publicados
* Aids Hoje: 3 volumes em colaboração com os médicos Antonio Fernando Varella e Narciso Escaleira.
* Estação Carandiru (Companhia das Letras): Prêmio Jabuti de 2000
* Macacos (Publifolha): Faz parte da série Folha Explica
* Nas Ruas do Brás (Companhia das Letrinhas): Literatura infantil; Prêmio Novos Horizontes da Feira Internacional do livro de Bolonha, Itália, e revelação de autor de literatura infantil na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2001.
* De Braços Para o Alto (Companhia das Letrinhas): Literatura infantil, publicado em 2002.
* Florestas do Rio Negro: Coordenou a elaboração do livro que, sob a editoria científica de Alexandre de Oliveira e Douglas C. Daly, reúne trabalhos de vários colaboradores sobre a biodiversidade botânica da região amazônica e foi indicado para o Prêmio Jabuti em 2002.
* Maré – Vida na favela (Casa das palavras): Co-autoria: Paola Berenstein, Ivaldo Bertazzo, Drauzio Varella, Pedro Seiblitz (imagens).
* Por um Fio (Companhia das Letras): Publicado em 2004.
* Borboletas da Alma (Companhia das Letras): Publicado em 2006.
* O Médico Doente (Companhia das Letras): Publicado em 2007.
* Cabeça do Cachorro (Editora Terrabrasil): Drauzio Varella, Araquém Alcântara e Jefferson Peixoto; Ensaio publicado em 2008

Fonte: http://joseamancioneto.blogspot.com.br/2015/09/correr-livro-de-dr-drauzio-varella.html

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