O mundo de Bernadete

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Resgatando o valor da família
Fizemos uma visita à Bernadete. Conversamos com o gravador ligado e ela foi só felicidade. Ria bastante e sua espontaneidade era tanta que não foi preciso fazer nenhuma pergunta especial. Só contemplar a beleza que jorrava de sua voz emoldurada pelo saltitar de seus olhos brilhantes e participar de seu mundo especial. A seguir, um pouco desse mundo:

P – Quando começou a sua atividade no Clube da Melhor Idade?
R – Faz três anos. Uma amiga me convidou. Quando cheguei lá fui logo ser o anjo no pastoril. Nossa associação já tem sede própria comprada com dinheiro de nossas atividades sociais. Somos 75 associadas e contribuímos com R$ 5,00 por pessoa. Nossa sede é na Rua Experidião Rodrigues. Reformamos a casa, já compramos geladeira, cadeiras, etc. Temos bingos todos os meses. Como em toda organização, há os que não comparecem. Nosso movimento é de âmbito nacional, com sede em Brasília, que centraliza tudo. É um divertimento para uma idade que antes não se dava valor.

P – Você parece transpirar felicidade. Como é isso?
R – A Ivany chegou hoje lá. Ela viu. Parece uma aula de criança. Todo mundo alegre. A maioria é sem marido; outras são solteironas. Também tem mulher casada. Temos a Lizete, do Neusvaldo, a esposa do Dija, que é a tesoureira; a dona Diva, e outras. Dona Diva é uma excelente criatura. Ela é uma mãe, uma amiga. Ela é tudo. Nós amamos a dona Diva. É uma pessoa maravilhosa. Os maridos de algumas têm um papel muito importante para nós. Eles nos dão mais segurança, mais apoio. A gente começa a brincar, a dançar. É um divertimento sadio. Eu que não tenho marido, não tenho preocupação com nada. Sou muito tagarela; muito comunicativa. Sou do pastoril e do guerreiro, onde sou o mateus. Eu faço coisas que as pessoas ficam admiradas. Dizem: “Não é possível.” Pode crer. Mas tem a graça de Deus. Ao ensaiar três semanas seguidas, fomos para o Clube dos Fumicultores fazer o teste final. Quando subi na passarela, não era a Bernadete, era outra pessoa. Mudei por completo. Hoje eu estava assistindo a Xuxa e senti a emoção que ela tem quando se apresenta em seus programas. Fiquei admirada ao ver as pessoas que me conheciam encantadas com a minha atuação e diziam: “Aquela não é a Bernadete.” Fui apenas para fazer número. Sabia que não ia ganhar título nenhum. Mas eu fui para me divertir. Deus me ajudou. Saí desfilando e parecia gente. Nem parecia a Bernadete coitadinha que o povo conhece.
O nosso clube está indo bem. Temos reunião em todo primeiro Sábado de cada mês. Com 15 dias temos os aniversariantes do mês. É outra festa. Encontram-se todas; cada uma leva um litro de guaraná, outras levam bolo, salgadinho e assim tem o bolo dos aniversariantes.
Sempre passeamos. Quem tem condições, sempre passeia mais. Agora vai haver um congresso na Paraíba que vai tratar das coisas da terceira idade. Dona Diva disse: “Vamos deixar o nosso dinheiro para gastar com nossos passeios pequenos. Bom foi o passeio de Brasília que fizemos há pouco tempo. O Governador deu o ônibus, e nós pagamos só R$ 150,00 cada pessoa. Ficamos na Colônia de Férias durante três dias. É um lugar muito bonito. Fica em Goiás, Caldas Novas, onde a água é bem quente. Lá tem muitas coisas bonitas. Já fui pra vários passeios; Xingó, Maceió, várias vezes, inclusive um congresso da terceira idade, cujo pacote incluiu até um carnaval para a turma, passeio de barco nas lagoas e um baile de encerramento. Ninguém é discriminado. Tem gente formada, aposentada, que não tem o que fazer e vai participar dessas atividades. Todo mundo se diverte e é maravilhoso. Em Goiás, teve um baile, uma seresta, onde nós dançamos bastante. Teve um senhor que me tirou para dançar e dançava muito bem. Ele me tirou para dançar e quando a pessoa dança bem a gente entra no ritmo e tudo dá certo. Bateram palmas e a gente se soltou mesmo. As colegas apoiam e a gente se sente bem. Você está num meio que ninguém manga de você. Dá uma força maravilhosa e a gente se sente jovem. É uma vida que muda muito a gente.
Entusiasmada, Bernadete pegou as fotografias de suas apresentações e mostrou, feliz. Descrevia os pormenores. “Nos ensaios eu tinha medo quando chamavam: ‘Maria Bernadete Magalhães’, aí eu sentia um calafrio. Imagine no Clube dos Fumicultores, cheio.

“Bernadete Anjo e Bernadete Diabo”, referências aos personagens que encarnava. ‘’Eu era uma presepeira, fazendo essas doidices todas.’’ Ivany entrou. Está faltando os dados de identificação para fins de cadastramento. Mas ela já está registrada no livro e participando. Ela disse que tem uma barreira enorme, que está bloqueando a sua vida; não acha mais graça nas coisas. Ela sofreu demais e está sofrendo. No Clube da Terceira Idade ela vai se entrosando aos poucos com a turma e termina se soltando. Tem muitas que estão começando a viver a vida agora. Desde que entrei nesse clube a minha vida se transformou e transbordo aquela alegria permanente. Eu tenho uma facilidade muito grande para me adaptar a tudo. Qualquer papel a que me submeto em me saio bem. Na primeira semana que entrei, nós fizemos uma comédia e fizeram tudo para eu ir participar. Foi difícil para eu decorar o texto. No entanto, na hora eu fiz o que vinha na cabeça, muita presepada e todo mundo riu. Aí eu fui aplaudida. Era a primeira vez que eu participava. Daí pra frente, era convocada toda vez. A Eunice tem talento para dramatização. Eu me junto com ela e fazemos uma grande parceria.

Mensagem – Tenho uma mensagem de paz e tranquilidade…Não tenho inveja de nada; cada um ocupa o seu espaço. O clube está despertando até o sentimento de vaidade que eu não tinha mais. Estou procurando me vestir melhor…e meus filhos me ajudam muito, principalmente a Wilma. Ela e eu somos como duas irmãs.

Confidência – Eu fico a imaginar por que a mamãe tinha bronca comigo. Papai gostava mais de mim. Papai era diferente. Ele dizia: “Minha filha é isso; minha filha é aquilo.” Porque eu sempre fazia aquilo que ele gostava. O que o papai tinha por mim, mamãe tinha pela Ivany. Ela gostava mais de estudar; tinha mais chance. Eu tinha uma espécie de bloqueio, principalmente em português. Eu gostava de matemática. Quando tinha um ditado… Por exemplo, uma palavra como jarro eu ficava em dúvida se era com ‘j’ ou com ‘g’. Hoje não sinto dificuldade. Parece que foi problema da mordida de cobra que sofri quando era pequena. Eu perdi a inteligência. Mas graças a Deus está tudo bem. O pouco dinheirinho que ganho rende que faz gosto. Os meus filhos gostam de mim… A minha vida é rezar por eles, e quando eles me encontram fazem aquela alegria. Quando surgiu a chance de ir passear em Brasília, fui orientada a conseguir dinheiro de qualquer maneira. Aí eu me lembrei da Betinha que tinha se colocado a minha disposição para qualquer emergência. Procurei-a e ela estava sem condições. A Ivany me atendeu na hora. Em Brasília, conhecemos tudo. Talvane, sendo filho da dona Diva, facilitou as coisas para a gente. Não faltou nada. Escalou guia para mostrar tudo. Liberou o telefone. Conhecemos tudo: as igrejas de Brasília, o Catetinho, que o Juscelino Kubitscheck construiu em dez dias. Depois seguimos para o Estado de Goiás. Fomos para uma Colônia de Férias com três hotéis lindos, com muito verde, muitas piscinas. Foi tudo tão bonito que parece ter sido um sonho.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Como pode? Somos tão próximos, temos uma vida vivida já, ao passo que, demorei tanto tempo para descobrir e me surpreender com esse universo encantador e predominante na personalidade minha irmã primogênita!! Sua alegria nata, denota um espírito jovem, feliz com as experiências de vida e acima de tudo o fascínio de constatar que a Bernadete tem talento diferenciado para representar. Pena que o ambiente em que ela viveu não proporcionou a oportunidade de desenvolvimento dessa maravilhosa competência artística tão invejada por tantos. Berna, você verdadeiramente nos ensina o caminho pra ser feliz, você faz parecer tão fácil!!!!
    Parabéns Abel, pela bela entrevista.
    Abr
    Fernando

  2. Realmente a Tia Bernadete é uma simpatia, a humildade em pessoa. Convivi muito com ela e meu saudoso Tio Geraldo quando estudava na Escola Quintela Cavalcante, que fica bem perto de sua casa. Lá deixava minha bicicleta no quintal, entrava e era recebido por todos com muito carinho, me dirigia ao banheiro para me arrumar e seguia para minha aula.
    Bela entrevista Tio Abel, admiro muito esse clube da melhor idade, ele oxigena e revela talentos!!!

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